Espiritualidade Cristã e Palavra de Deus – nota pastoral para o ano 2026-2027

NOTA PASTORAL DO BISPO DE COIMBRA
ANO PASTORAL DE 2026-2027
ESPIRITUALIDADE CRISTÃ E PALAVRA DE DEUS

Plano Pastoral

Estamos a viver o triénio pastoral sob o lema “No espírito de Cristo está toda a nossa vida”. Procuramos deste modo valorizar o lugar da espiritualidade cristã como realidade central da nossa vida de fé na Igreja e ajudar os cristãos a entrarem em profundidade na relação com Cristo por meio da progressão na vida interior.

Somos já uma multidão de cristãos que, nas unidades pastorais, nas famílias, nos movimentos de espiritualidade, nas catequeses da infância, da juventude e dos adultos, nos dinamismos de primeiro anúncio e evangelização, na liturgia, nos serviços de ação social e caritativa, nas irmandades e associações de fiéis, nos conselhos para os assuntos económicos, fazemos caminho juntos e propomos a todos os meios de aprofundamento espiritual que a Igreja nos oferece.

Agradecemos a Deus por a nossa Diocese de Coimbra estar a acolher com alegria e espírito de comunhão as propostas do Plano Pastoral. Agradecemos a todos os que generosamente, com uma fé viva e esclarecida, na fidelidade ao Espírito que dá vida, assumem a dimensão sinodal da Igreja, especialmente os que fazem parte dos organismos de comunhão e participação: equipas de animação pastoral e conselhos pastorais. Agradecemos aos ministros ordenados – sacerdotes e diáconos -, e a todos os que assumem ministérios na comunidade, tanto consagrados como leigos, o testemunho de entrega a Deus e à Igreja, pois com a oferta de si mesmos estão a realizar o batismo que receberam como dom e missão para a edificação do Corpo de Cristo.

Se o lugar onde nasce, cresce e se alimenta a espiritualidade cristã é a Igreja, o mundo é o lugar que precisa de ser transformado pela presença atuante de Cristo, por meio do testemunho dos cristãos, que partem renovados em missão.

Deus deu-nos a Palavra feita carne, Jesus Cristo, o Verbo Incarnado, Palavra e Pão, que acolhemos especialmente na Sagrada Escritura e na Eucaristia. Quando escutamos atentamente a Palavra de Deus e celebramos com fé a Eucaristia, progredimos no espírito de Cristo e encontramos a verdadeira vida que Ele nos dá. Formados pelo Espírito Santo nesta Sabedoria de Deus, permanecemos em Cristo, vivemos na comunhão da Igreja e estamos disponíveis para realizar no mundo a missão que Ele nos deixou, anunciamos a salvação de Deus a todos os povos da terra.

Renovação espiritual da Igreja

A Igreja tem uma identidade única que lhe vem do ato fundador de Deus: é Povo Santo de batizados, de discípulos de Jesus Cristo, que caminham animados pelo Espírito Santo dá vida. Constituída por homens e mulheres limitados e pecadores, a Igreja precisa de abrir-se continuamente à renovação espiritual, sem a qual não dá frutos nem transforma a sociedade humana à qual é enviada em missão como sal, fermento e luz. O caminho da nossa renovação pessoal e eclesial passa sempre pelo enraizamento no espírito de Cristo, em quem vivemos, nos movemos e existimos (cf At 17, 28). Isso só pode acontecer se vivemos iluminados pelo Espírito que dá vida, se caminhamos no Espírito (Gl 5, 16), pois a carne não serve para nada (cf Jo 6, 63),

Somos parte da humanidade que vive neste tempo marcado pela dimensão material e pela debilidade das ideias, pelo desfrutar do que é imediato e pela ausência de fundamentos sólidos para viver, pela falta de compromissos sérios e duradouros. O contexto eclesial em que vivemos no Ocidente, mais centrado na preservação de costumes e tradições culturais e sociais do que na força do encontro com Deus, fez de nós pessoas e comunidades frágeis na fé, pobres na coesão espiritual e numa grande crise de identidade.

Encontramos nas comunidades cristãs vários sinais que apontam para a necessidade de passar de um cristianismo cultural para uma Igreja viva, alicerçada em Cristo, animada pelo Espírito e a caminho da Pátria Celeste. A avaliação da vida das comunidades cristãs indica-nos um conjunto de realidades para as quais a ação pastoral da Igreja sente o dever de propor caminhos novos:

  • como comunicar a fé às novas gerações quando as famílias estão pouco evangelizadas; de que modo fazer uma catequese das crianças, adolescentes e jovens que as leve ao encontro pessoal com Cristo;
  • como ajudar os cristãos a celebrar semanalmente os mistérios da fé na Eucaristia; como levar a Igreja a um forte enraizamento em Cristo;
  • como ajudar as pessoas a aprofundar a especificidade da espiritualidade cristã no meio de tantas propostas não crentes;
  • como fazer experimentar a todos a beleza da oração filial de gratidão e de súplica; como dar a conhecer a voz de Deus que fala nas Sagradas Escrituras;
  • como tornar a fé o motor da dimensão ética da família, da vida, da sociedade, da cultura.

As propostas pastorais da Igreja devem também focar-se noutra questão bem presente na mentalidade hodierna: a perspetiva individual, frequentemente individualista, que enfraquece a comunhão, a relação e a participação na comunidade. Queremos ajudar os cristãos a passar da religião como uma questão do foro íntimo, vivida e sentida de maneira própria e sem relevância social e comunitária, para uma fé comunitária, alimentada nas fontes da Sagrada Escritura e dos Sacramentos, celebrada em Igreja, ativamente participada, partilhada no encontro da assembleia cristã e testemunhada na missão.

A renovação da Igreja passa sempre pela nossa escuta da voz de Deus presente na Palavra Revelada e pela nossa resposta orante, que nos dá o sentido espiritual da fé e da vida, nos leva a percorrer os caminhos do encontro com Cristo, nos insere na comunhão da Igreja e nos impele para a missão.

A espiritualidade cristã e a Palavra de Deus

“A Palavra de Deus está na base de toda a espiritualidade cristã autêntica”. São palavras da Exortação Apostólica Pós-Sinodal do Papa Bento XVI, Verbum domini (86), que nos ajudam a compreender a importância da Bíblia na vida dos cristãos e a ver com clareza as linhas fundamentais da espiritualidade cristã.

A Sagrada Escritura tem um lugar único na construção da espiritualidade cristã porque nos leva a conhecer o rosto de Cristo, a ouvir a Sua voz e a contemplar os seus gestos e atitudes no presente da nossa vida e da nossa história. Com a Palavra de Deus como guia podemos construir uma espiritualidade de sólido fundamento e não embarcamos em meras sugestões vindas de dentro de nós ou do ambiente circundante. “De facto, para edificar a própria vida, ele (o homem) tem necessidade de alicerces sólidos, que permaneçam mesmo quando falham as certezas humanas” (Bento XVI, Verbum domini 10) e a Palavra de Deus dá-nos essa garantia de verdade revelada em ordem à nossa salvação.

Graças à inspiração divina, o Texto Sagrado transmite com verdade tudo o que precisamos de conhecer e de praticar para alcançarmos a vida eterna. Graças à presença do Espírito Santo no escritor sagrado, na longa cadeia de transmissão do texto e também na Igreja em que a lemos e escutamos, a Bíblia conduz-nos à atualização em nós do espírito de Cristo e está no fundamento da espiritualidade cristã. Graças à leitura em Igreja, encontramos a certeza da autenticidade da Tradição que nos permite interpretar retamente a Palavra Revelada e fazer dela fundamento seguro de fé.

Quando falamos de espiritualidade bíblica não nos referimos à relação do cristão com um livro, pois o cristianismo não é uma “religião do livro”. Falamos, sim, da relação do cristão com Cristo, a Palavra feita Carne no seio da Virgem Maria, o Verbo de Deus que veio até nós para nos dar a conhecer o grande amor que Deus nos tem. Veneramos, no entanto, as Sagradas Escrituras porque elas nos dão Cristo, nos levam a conhecer Cristo, nos conduzem a amar Cristo, que nos fala, a quem nós respondemos, e que é o único mediador entre Deus e o Homem.

A Bíblia na vida dos cristãos

São Jerónimo estava bem ciente de que a Bíblia é o instrumento «pelo qual diariamente Deus fala aos crentes» e pergunta: «Como seria possível viver sem o conhecimento das Escrituras, se é por elas que se aprende a conhecer o próprio Cristo, que é a vida dos crentes?» (cf Bento XVI, Verbum domini, 72).

Por sua vez, o Concílio Vaticano II, por meio da Constituição Dogmática sobre a Divina Revelação, Dei verbum, atualiza a mesma exortação para a atualidade, quando se dirige a todos os fiéis, dizendo: «debrucem-se, pois, gostosamente sobre o texto sagrado, quer através da sagrada Liturgia, rica de palavras divinas, quer pela leitura espiritual, quer por outros meios que se vão espalhando tão louvavelmente por toda a parte, com a aprovação e estímulo dos pastores da Igreja. Lembrem-se, porém, que a leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada de oração» (25).

“A ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo” disse São Jerónimo, numa síntese admirável acerca do lugar que tem a Palavra de Deus na vida de cada cristão e de cada comunidade cristã. Esta interpelação, unida a muitas outras provenientes do atual Magistério da Igreja, leva-nos a fornecer aos cristãos os meios adequados para que conheçam melhor a Cristo, para o amarem de todo o coração, caminharem espiritualmente com Ele e permanecerem n’Ele.

Propostas pastorais

Tendo em conta o lugar que a Palavra de Deus unida à Eucaristia ocupa no desenvolvimento da espiritualidade cristã e em conformidade com o Plano Pastoral, a nossa Diocese de Coimbra propõe-se este ano dar um novo impulso à pastoral bíblica e no próximo ano à pastoral litúrgica.

A Diocese e cada comunidade procurarão assumir como programa de ação algumas das propostas de pastoral bíblica aqui elencadas ou outras provenientes da sabedoria da Igreja, em ordem ao crescimento espiritual dos cristãos.

Propostas:

  • Cuidar da leitura litúrgica da Palavra de Deus: formação dos leitores, lugar e modo da proclamação, condições de escuta.
  • Incentivar a oração pessoal e comunitária da Liturgia das Horas, uma vez que é oração essencialmente bíblica conducente à santificação das diferentes horas do dia (pode usar-se a aplicação da Conferência Episcopal Portuguesa: Apple bit.ly/LH_IOS ou Google bit.ly/LH_Gogl)
  • Reforçar o uso adequado da Palavra de Deus na catequese, nas ações de evangelização, nas reuniões e assembleias pastorais, nas vigílias, peregrinações, práticas de piedade popular, festas e assembleias dominicais na ausência de presbítero.
  • Valorizar a prática da relação diária e pessoal dos cristãos com a Palavra de Deus (podem usar-se as leituras da missa diária disponíveis na aplicação acima apresentada) – lectio divina (leitura orante da Palavra de Deus) – lida, meditada, contemplada e rezada no silêncio em que Deus nos fala, nos escuta e nos forma na obediência da fé.
  • Promover uma adequada formação bíblica dos cristãos que ajude a “compreender, viver e anunciar a Palavra de Deus” (Bento XVI, Verbum domini 75), por meio de cursos bíblicos ou com o auxílio da Escola Diocesana de Teologia e Ministérios.
  • Aconselhar os agentes pastorais, sobretudo catequistas e evangelizadores, a estudar a Exortação Apostólica Pós-sinodal do Papa Bento XVI, Verbum domini. bit.ly/VD_pt
  • Desenvolver o projeto diocesano de criação dos Grupos Bíblicos (familiares, locais, de vizinhança, na capela, na paróquia, na unidade pastoral), denominados “Luz para os meus passos” (Sl 119, 105) com o apoio de um vídeo formativo e de uma proposta de trabalho de grupo, quinzenalmente à terça-feira, às 21:15, ao longo de todo o ano pastoral (transmissão no canal de Facebook e Youtube da Diocese de Coimbra).

 

Virgem Maria, modelo de escuta da Palavra de Deus

“Felizes os que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática» (Lc 11, 28). Segundo o Evangelho de Lucas, a escuta, acolhimento e vida de acordo com a Palavra de Deus é o grande motivo da alegria e da felicidade dos crentes, identificados como a Mãe e os Irmãos de Jesus, ou seja, com a Virgem Maria e os Discípulos.

A verdadeira grandeza da Virgem Maria, também aberta a cada um de nós, encontra-se no relacionamento pessoal e comunitário com Deus, que nasce da familiaridade com a Palavra de Deus (cf Bento XVI, Verbum domini 124).

Como filhos e filhas da Virgem Maria, entregamos à sua proteção o nosso ano pastoral e todas as ações conducentes ao aprofundamento da nossa espiritualidade cristã por meio do encontro com a Palavra de Deus.

Coimbra, 07 de agosto de 2026
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra

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