Há oportunidade para a paz?

Há oportunidade para a paz?

Na semana passada soubemos que os gastos militares globais ultrapassaram os 2,46 biliões de dólares em 2024. Um dado apresentado no relatório The Military Balance 2025, do International Institute for Strategic Studies (IISS), o qual analisa as tendências militares de 2024. Um contexto marcado por conflitos regionais intensificados, aumento recorde dos orçamentos de defesa desde a Guerra Fria e mudanças estruturais nas cadeias de produção militar, visando maior agilidade e adaptação à guerra prolongada! Este é um número avassalador, que representa um crescimento de 7,4%. O maior desde a Guerra Fria. A indústria do armamento não está apenas viva: está em expansão! E como qualquer indústria, precisa de crescer, produzir, vender. Porque sim, também aqui a lógica da oferta e da procura funciona: cria-se a necessidade, alimenta-se o medo, vende-se a “segurança”.

É estranho, profundamente estranho, que, com tudo o que já vivemos enquanto humanidade, aceitemos como normal a ideia de que nos devemos preparar para a guerra. Que a paz é uma utopia, e que a única forma de estarmos “seguros” é armarmo-nos até aos dentes. Como se não houvesse alternativas. Como se a diplomacia, os acordos, a cooperação fossem sinais de fraqueza.

Vivemos numa era em que a inteligência artificial está a transformar radicalmente a forma como pensamos, comunicamos e trabalhamos. E, ainda assim, parece que não conseguimos aplicar esse mesmo engenho à construção de relações entre povos. Continuamos a agir como se a guerra fosse um destino certo. E esquecemo-nos de que a paz também é uma escolha. Uma escolha que exige construção dinâmica.

É urgente olharmos para este vórtice de violência e perguntarmos: a que custo? E para quê? Não estamos já fartos de enterrar os nossos mortos, de estancar o sangue e colocar próteses, de assistir à destruição, de ver vidas esfumarem-se por decisões tomadas longe de quem sofre as consequências?

O Papa Francisco, na sua fragilidade física, revelou uma força moral que poucos líderes conseguem exibir. Relembrou-nos que a guerra é sempre uma derrota, e para todos. E que não há guerras justas, por muito que nos tentem convencer do contrário. Talvez seja tempo de escutar. De escutar verdadeiramente. E de ousarmos acreditar que outro caminho é possível. Que, por mais ingénuo que pareça, o desarmamento não é uma fantasia. É uma necessidade. E que a paz, essa palavra tão gasta, continua a ser o horizonte mais digno para qualquer civilização que se queira chamar humana.

Na manhã de Páscoa, o Papa Francisco apareceu diante do mundo visivelmente fragilizado, numa cadeira de rodas. Mas a sua mensagem teve a força de quem se recusa a calar-se. Ao acompanhar a leitura da sua mensagem pascal, lançou um apelo claro: “Não é possível haver paz sem um verdadeiro desarmamento.” Num tempo em que falar de paz parece quase ingénuo, Francisco insiste, e ainda bem, em lembrar-nos que a guerra não é inevitável. Nunca foi. E nunca será.

Madalena Abreu
CDJP

 

 

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