HOMILIA NO 60º ANIVERSÁRIO DA MORTE DO P. AMÉRICO

XVII DOMINGO COMUM C

IGREJA DE SÃO JOSÉ, COIMBRA

60º ANIVERSÁRIO DA MORTE DO P. AMÉRICO

 

Caríssimos irmãos e irmãs!

Nesta celebração da missa dominical, agradecemos a Deus o dom da sua misericórdia, revelado definitivamente por meio de Seu Filho Jesus Cristo há dois mil anos, quando falou e agiu em nome do Pai. As suas palavras consoladoras dos pobres e dos aflitos, os seus gestos de acolhimento e de perdão a todos sem exceção e a sua morte na cruz para salvar os pecadores, não só deram a conhecer como realizaram a obra de misericórdia de Deus, que se resume na expressão continuamente repetida: salvou a humanidade da morte em que jazia.

Damos graças a Deus por todos aqueles que, unidos a Jesus Cristo e seguindo o seu estilo de vida, pelos seus santos, que deram continuidade no tempo a essa revelação do coração de Deus, rico de misericórdia.

Hoje, de um modo muito especial, assinalando os 60 anos da morte do P. Américo, damos graças a Deus pela sua entrega, pelo seu amor aos pobres, pelo seu empenhamento ao serviço da manifestação da misericórdia do Pai por meio de algumas palavras, porventura pouco marcadas pela erudição, mas, acima de tudo, por meio de uma vida que fala eloquentemente do fogo de Deus que lhe ardia no coração.

Pedimos inclusivamente na oração a sua beatificação, para que o seu testemunho tão vivo na Igreja e tão fortemente sentido por aqueles que sentem na sua carne a força da sua caridade se torne ainda mais notório e capaz de arrastar a humanidade para amar a Deus e ao próximo, não somente com palavras, mas com obras e em verdade.

 

A história do amor e da misericórdia de Deus pela humanidade começou no princípio do mundo, quando Deus criou o Céu e a Terra. Tudo se orientou para a salvação da humanidade, que se realizou no mistério da sua morte e ressurreição.

O batismo, pelo qual fomos sepultados com Cristo e no qual fomos ressuscitados dos mortos para viver uma vida nova, constitui para cada cristão esse momento central da nossa vida, que nos faz continuar em cada dia e momento como novas criaturas.

A Segunda Leitura dava-nos essa perspetiva essencial da nossa condição e fazia-nos voltar a essa realidade central da nossa fé, que faz de nós homens e mulheres que já conheceram e acolheram o dom da misericórdia de Deus. Estando nós mortos nos nossos pecados, voltamos à vida com Cristo, Ele perdoou-nos as nossas faltas, anulou o documento da nossa dívida, justificou-nos por meio da cruz em que sofreu e morreu por nós.

Não podemos ser cristãos se não permanecemos nesta certeza de fé, segundo a qual o Senhor nos libertou e salvou, pela sua eterna misericórdia. Não podemos sentir-nos cristãos se não conhecemos este amor revelado por Jesus. É por isso que a cruz de Cristo é um sinal central da iconografia cristã e o Cristo crucificado não pode ser substituído por nada nem por ninguém – Ele é o sacramento da misericórdia do Pai, que revela e realiza tudo o que Deus preparou para nós.

 

A leitura do livro do Génesis, antecipando o conhecimento que temos de Deus por meio de Jesus Cristo, assegurava-nos que Deus está disposto a dar tudo para salvar a humanidade. A narração, que parou na referência aos dez justos em atenção aos quais Deus não destruiu a cidade, teve o seu epílogo no Evangelho, segundo o qual Deus não destruiu a cidade em atenção a um único justo, o Seu próprio Filho.

Faz-nos bem olhar para nós, pecadores e injustos pelos quais Deus sacrificou tudo, mesmo o seu Filho Unigénito.

Este modo de ser de Deus Pai torna-se o modo de ser de Jesus e dita o modo de ser dos seus discípulos. O amor vai até ao sangue, tem de tocar-nos na carne para ser verdadeiro, leva-nos ao sacrifício pelos outros, pelos pobres, pecadores e injustos. Esta é novidade de Jesus quando assume que por um justo qualquer um está disposto a sacrificar-se, mas, por um injusto e pecador, quem o fará? Quantas atenuantes e quantas desculpas ou razões para o não fazer!

 

“Não me incomodes!” é a expressão do Evangelho que resume a nossa ausência, a nossa indiferença, o nosso comodismo diante do nosso próximo em necessidade, sobretudo diante dos pecadores e injustos, dos que nada têm a dar em troca.

Um homem verdadeiro não deve passar ao lado de ninguém, um cristão não pode passar ao lado de ninguém. Deus incomoda-se connosco e nós temos de incomodar-nos com os outros. De outro modo é falsa, vã e inútil a nossa fé.

Ser cristão e viver da fé não significa somente acreditar que Jesus morreu e ressuscitou; inclui estar disponível para morrer e ressuscitar com Ele para que os outros tenham vida em abundância, significa incomodar-se com os outros a ponto de não passar ao lado, fechar a porta da sua casa e do seu coração à misericórdia a que têm direito.

 

Voltemos ao P. Américo, um homem e um cristão que, pelo batismo, acreditou que Jesus morreu e ressuscitou, assumiu a vida nova, sentiu-se profundamente incomodado com os outros.

Sair às ruas, acolher os mais pobres dos pobres, as crianças, os órfãos, os doentes sem remédio, foi uma encarnação do Evangelho, dar continuidade à obra de Deus, atualizar os sinais de misericórdia de Jesus. Somos tão pequenos diante de tudo isto!

 

Peçamos ao Senhor que nos fortaleça para que a nossa vida e a nossa misericórdia para com os irmãos santifiquem sempre o Seu Nome;

peçamos o dom de acolher e distribuir com amor o pão da subsistência, que mate a fome do corpo e do espírito;

peçamos que nos perdoe e salve dos nossos pecados e a graça de perdoarmos e ajudarmos a salvar os nossos irmãos;

peçamos que continue a incomodar-se connosco e nos livre da tentação de deixarmos de nos incomodar com os nossos irmãos.

 

Coimbra, 24 de julho de 2016

Virgílio do Nascimento Antunes

Bispo de Coimbra

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