MISSA CRISMAL – 2025
Caríssimos irmãos e irmãs!
Hoje é o dia em que todos nós, membros da Igreja, agradecemos a Deus por nos ter chamado a participar do sacerdócio de Seu Filho Jesus Cristo, isto é, por nos ter dado a possibilidade de nos oferecermos e de dispormos da totalidade da nossa vida para O amar e servir na pessoa dos nossos irmãos.
Recebemos de Cristo esse dom do sacerdócio quando fomos sepultados com Ele na morte e ressurgimos com Ele para a vida nova, no batismo. Desde esse momento inaugural da nossa fé, por meio da água e do Espírito, estamos ligados a Cristo e associados à Sua missão no mundo. Desde o batismo, temos por vocação viver unidos a Cristo, que se oferece ao Pai na totalidade da Sua vida e temos por vocação, dar-nos a Deus e dar-nos aos irmãos, na realização do único culto que Lhe é agradável: a oferta de nós mesmos, a oferta da própria vida em gesto de amor.
Hoje é o dia em que todos nós, chamados ao sacerdócio ministerial para a configuração com Cristo Cabeça e Pastor da Igreja, agradecemos o dom que recebemos por meio do Sacramento da Ordem. Também nós, e sobretudo nós, em virtude dessa específica configuração com Jesus Cristo, temos como única vocação oferecer a nossa vida pelos irmãos. Esse é o nosso primeiro e o mais agradável ato de culto a Deus.
Na oferta de nós mesmos encontramos o sentido e a razão de ser do culto litúrgico a que presidimos, da oração que elevamos ao Pai com a Igreja e em nome de todos os homens que Deus ama e quer salvar; nessa oferta de nós mesmos se enquadra o nosso cuidado para com todos, a nossa caridade pastoral, a nossa vivência concreta do amor aos mais pobres e mais débeis, o serviço de anúncio do Evangelho.
Ministros ordenados ou leigos, é em Jesus Cristo, que se oferece ao Pai por toda a humanidade, que encontramos o modelo de realização da nossa condição sacerdotal. O Evangelho segundo São Lucas aplica a Jesus as palavras da profecia de Isaías, segundo as quais Ele foi cheio do Espírito Santo e ungido para a realização da missão que Lhe foi confiada: “anunciar a boa nova aos pobres, proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, restituir a liberdade aos oprimidos, proclamar o ano da graça do Senhor”. As mesmas palavras se aplicam a todos os que participam do sacerdócio de Jesus, mesmo que, como disse o Concílio, o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial se diferenciem essencialmente e não apenas em grau (cf. LG 10).
Nem Isaías nem o Evangelista Lucas esqueceram a dimensão cultual e litúrgica da nossa condição sacerdotal. No entanto, não reduziram o sacerdócio à dimensão ritual, mas antes ampliaram o seu significado espiritual e existencial, isto é, enquadraram-no no contexto abrangente de oferta da própria vida como sacrifício perfeito, santo, agradável a Deus e salutar para os irmãos. Por sua vez, os textos sagrados também não reduziram o sacerdócio dos cristãos à sua dimensão social, mas antes o apresentaram enraizado no próprio Deus que, por meio do Espírito Santo, nos ungiu para a participação na missão de Cristo Salvador.
Caríssimos irmãos, sacerdotes!
A nossa gratidão a Deus pelo dom que recebemos de participar no sacerdócio de Jesus não se fica somente por um conjunto de palavras ou intenções. Queremos efetivamente continuar a oferecer a totalidade da nossa vida ao Senhor, no serviço da Sua Igreja e em favor de toda a humanidade. O Povo de Deus que servimos nas comunidades fica feliz quando conhece a nossa entrega; sente-se animado no seu caminho de fé quando acolhe o nosso testemunho de uma vida dada por amor; dispõe-se a uma participação corresponsável na edificação da Igreja quando partilhamos com ele as nossas alegrias e esperanças, quando nos sente irmãos e amigos no Senhor.
Por sua vez, quando o nosso testemunho falha, também o Povo de Deus vive o desalento; quando nos fechamos sobre nós mesmos e relegamos a missão para segundo plano, deixamos o Povo de Deus sem o alimento divino; quando enfraquece em nós o dinamismo da fé, da esperança e do amor, fica o Povo de Deus como ovelhas sem pastor. Sermos sacerdotes do Deus Altíssimo é para nós uma graça imensa e é, ao mesmo tempo, uma feliz responsabilidade, que nos permite partilhar a doce alegria de evangelizar e levar o Povo de Deus às fontes da salvação.
Caríssimos irmãos!
O último Sínodo sobre Sinodalidade – Comunhão, Participação e Missão, ofereceu-nos uma importante reflexão acerca do modo como havemos de viver a nossa vocação sacerdotal, que proponho como programa de conversão e renovação da nossa vida. Trata-se da conversão das nossas relações, pois elas são expressão do nosso enraizamento em Deus Santíssima Trindade, relação amorosa das Pessoas Divinas.
As relações com Deus, que tomou a iniciativa de vir ao nosso encontro em Jesus Cristo, são essenciais ao nosso percurso. Cultivam-se no acolhimento da graça que nos foi dada, mas também com o auxílio indispensável da celebração dos Sacramentos, da oração de coração, da escuta silenciosa da Palavra da Escritura, da dedicação ao ministério com amor, da caridade sincera.
As relações com os irmãos do mesmo presbitério precisam de crescer no sentido da amizade mais autêntica, própria de membros de uma mesma família. Todos“são chamados a viver a fraternidade presbiteral e a caminhar juntos no serviço pastoral” (Documento Final do Sínodo, 72). E, como sabemos, não basta uma mera cooperação institucional ou formal, pois as verdadeiras relações entre os membros do presbitério são sempre ligações do coração e comunhão no mesmo Espírito.
A Igreja sofre sempre que o presbitério não vive na amizade e na comunhão, quando não caminha unido nos mesmos percursos pastorais discernidos por todos, quando se instala qualquer forma de divisão que impossibilita o diálogo e compromete a fraternidade. É urgente um caminho sério de conversão das relações dentro do presbitério e com os irmãos ordenados para o ministério dos diáconos, participantes da mesma solicitude de Cristo para com o Seu Povo.
A corresponsabilidade na missão, a participação nos momentos diocesanos de encontro, a disponibilidade para a formação proposta, a comunhão viva e visível na amizade e a preocupação pelos outros não são acessórias; são condição para a saúde humana, espiritual e pastoral do clero.
Convertamos, por isso, as nossas relações dentro do presbitério e façamos delas sinal da entrega da nossa vida ao Pai, segundo o mandamento novo do amor de Jesus, que nos configurou consigo no mesmo amor.
As nossas relações com os irmãos e irmãs, membros das comunidades cristãs que servimos, precisam igualmente de um forte impulso de conversão.
Havemos de interiorizar cada vez mais a certeza de que todos os batizados gozam da igual dignidade de filhos de Deus, de que todos formamos um só Corpo em Cristo e de que todos somos Povo de Deus a caminho da Pátria Celeste. Comunhão e participação não podem ser palavras vãs e o respeito pela corresponsabilidade que nos assiste deve pautar o nosso modo de sermos pastores na Igreja.
A própria autoridade dos pastores só tem sentido como serviço, pois somos todos servos e um só é o nosso Senhor. Nessa linha, queremos acolher todas as chamadas de atenção do Sínodo acerca do clericalismo como manifestação de poder, bem como os seus apelos dirigidos aos pastores no sentido da transparência, da prestação de contas e da avaliação dos caminhos percorridos. Tudo isso é sinal de respeito pelo Povo de Deus e de fidelidade ao dom recebido para benefício de todos.
O referido Documento Final (72) recorda-nos que “os presbíteros são chamados a viver o seu serviço numa atitude de proximidade com as pessoas, de acolhimento e de escuta de todos, abrindo-se a um estilo sinodal”, o que significa também abertura a acolher os dons, carismas e ministérios, que o Espírito Santo concede aos fiéis leigos para edificação da única Igreja.
Pedimos, hoje, ao Senhor que nos ajude neste percurso de conversão das relações com o Seu Povo, para que, servi-lo, faça parte do culto verdadeiro que prestamos ao Deus vivo.
Irmãos e irmãs!
Renovemos todos o nosso compromisso de servirmos ao Deus vivo com a oferta da nossa vida, uma vez que pelo batismo somos Povo de Sacerdotes. Acompanhemos os nossos irmãos presbíteros na renovação dos compromissos assumidos na Ordenação Sacerdotal e peçamos para eles o dom de um amor forte a Deus e aos irmãos que os faça permanecer felizes para sempre no seu santo serviço.
Coimbra, 17 de abril de 2025
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra