Missa Crismal 2026 – Homilia de Dom Virgílio

MISSA CRISMAL 2026

Caríssimos irmãos e irmãs!

“O Espírito do Senhor está sobre mim”. Segundo o Evangelista Lucas, estas são as palavras da profecia de Isaías, proclamadas por Jesus na Sinagoga de Nazaré, no início da Sua vida pública. De forma solene, Jesus declara que se cumprem em Si as palavras dos antigos profetas e que veio como o Messias de Deus, prometido e esperado pelo povo da sua terra.

“Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir”. Este é o comentário conclusivo de Jesus dirigido aos ouvintes presentes na Sinagoga. Diante dos seus conterrâneos, Jesus assume, assim, a sua condição de enviado do Pai, ungido pelo Espírito Santo, Messias prometido e portador do ano da graça do Senhor.

Segundo a teologia de Lucas, Jesus está no centro do tempo, Ele é mesmo o centro do tempo: para Ele confluem as profecias do passado, Ele realiza a salvação de Deus no presente e d’Ele nasce a história futura, que é a história da Igreja ou o tempo do Espírito.

Esta perspetiva da obra de Lucas, Evangelho e Atos dos Apóstolos, convida-nos a evitar a dispersão mesmo no seio da Igreja e face à proposta de anúncio e de vivência da fé. Havemos de centrar-nos em Jesus Cristo, o Filho de Deus, conduzido pelo Espírito Santo. É preciso dá-l’O a conhecer às multidões e a cada pessoa a partir das narrações e das palavras contidas na Sagrada Escritura, sobretudo a partir dos Evangelhos; é preciso apresentá-l’O como o centro do tempo e da história, porque sem Deus não é possível compreender plenamente o mundo e a humanidade; é preciso dar a conhecer o Seu amor por todos, a ponto de oferecer por nós a sua vida na cruz; é preciso ajudar a acreditar na Eucaristia celebrada e adorada como o centro do mundo, porque ali Deus se encontra com o homem, Jesus se oferece para resgate da humanidade perdida; é preciso ajudar a integrar homens e mulheres na Igreja, comunidade dos discípulos e povo de Deus, que está no mundo para ser sacramento da salvação de Deus; é preciso manifestar confiança no Espírito que nos unge para a missão no mundo.

Precisamos de voltar à centralidade de Cristo como Deus e Homem, à cristologia integral, tal como definida pelos Concílios Ecuménicos a partir de Niceia (325) e em plena conformidade com a Revelação Bíblica. Quando ficamos pela consideração de Jesus de Nazaré como um homem grande do passado, encantador nas suas palavras e obras, recordamos uma personagem histórica, porventura influente no modo de vida de muitos e marcante no percurso da civilização ocidental.

A fé cristológica leva-nos sempre a dar o passo seguinte, mas mais difícil para a mentalidade hodierna: acreditar que Jesus é o Filho Unigénito de Deus, concebido no seio da Virgem Maria, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, consubstancial ao Pai, presente e atuante em todos os tempos da história como Senhor e Salvador, que a todos abraça e ama.

No texto do Evangelho de Lucas que escutámos, encontramos, os traços do exercício do ministério de Jesus conduzido pelo Espírito e, ao mesmo tempo, as linhas orientadoras da missão da Igreja, guiada pelo Espírito. Somos chamados a reconhecer a ação do Espírito na Pessoa e Missão de Jesus e somos chamados, como Igreja, a deixarmo-nos conduzir pelo mesmo Espírito, que nos renova espiritualmente.

Toda a vida de Jesus se edifica na fidelidade ao Espírito de Deus que O ungiu para a realização do Seu ministério: o anúncio da Boa Nova aos pobres. A unção, na história de Israel sinal do espírito de Deus que concede a missão real, torna-se agora sinal do serviço ou ministério de Jesus, que vem para proclamar a graça do Senhor a todos os pobres, cativos, cegos e oprimidos, ou seja, a todos os que anseiam pela salvação de Deus.

Ungido pelo Espírito Santo, Jesus manifesta em toda a Sua vida a paixão de Deus pela humanidade carecida de ajuda e de amparo. O Evangelho oferece-nos uma leitura teológica do acontecimento que transformou a história da humanidade, a irrupção da presença de Jesus, o Filho de Deus, no meio de nós e para nós, que somos deste modo, a causa e a finalidade da sua vinda.

Ungido pelo Espírito Santo, Jesus revela em toda a Sua vida o mistério de Deus debruçado sobre a humanidade, que abraça a humanidade, que fala à humanidade, que ama a humanidade e que deseja ver a humanidade salva e feliz. Para que a revelação do Seu amor seja autêntica e acolhida, Deus empenha toda a expressão do seu amor – o seu próprio Filho – em favor da humanidade. Jesus, Deus e Homem, ungido pelo Espírito, oferece a totalidade de Si mesmo na realização do Seu ministério e manifesta a paixão amorosa de Deus pela humanidade, por todos nós.

Quando inicia o Seu ministério público na Sinagoga de Nazaré, Jesus acolhe a unção do Espírito e aceita a vontade do Pai, disponibilizando a totalidade da sua pessoa para a realização da obra de Deus: o Seu corpo e o Seu espírito, a Sua vontade e a Sua liberdade. Todo Ele e tudo n’Ele ao serviço do anúncio da Boa Nova aos pobres, ou seja, todo e tudo por nós e para nós.

A Igreja em todos os tempos e lugares, recebe de Deus a sua existência, a sua identidade e a sua missão. Todos nós, os seus membros, a partir do batismo recebemos a unção do Espírito que nos confere a existência cristã, a identidade cristã e a participação na missão da Igreja. Enquanto Igreja Povo de Deus, comunidade ungida pelo Espírito Santo, somos agora o sujeito do anúncio da Boa Nova aos pobres, dando continuidade no tempo ao ministério de Jesus, que nos deixou esse mandato.

Nesta manhã de Quinta-Feira Santa, na celebração da Missa Crismal em que benzemos o óleo dos catecúmenos e dos enfermos, em que consagramos o óleo do Crisma, renovamos a fé na Igreja que anuncia o Evangelho no seguimento dos passos e do estilo de Jesus. Como Igreja espiritual, porque animada pelo Espírito Santo, manifestamos a disponibilidade para acolher Cristo no nosso mundo e para O dar a conhecer como presença de Deus no nosso tempo. Nesses óleos reconhecemos a graça de Deus para abraçar a fé, para curar os doentes e desanimados, reconhecemos a força do Espírito de Deus que une os cristãos a Cristo para sempre.

Nesta manhã em que os sacerdotes renovam as promessas feitas no momento de graça da sua ordenação, recordamos que os mesmos sacerdotes, nascidos dentro do Povo de Deus, recebem a especial vocação da configuração com Cristo pela unção espiritual. Por esse motivo, os sacerdotes são os primeiros a ser chamados a identificar-se com Jesus, a oferecer a sua vida ao Pai e a anunciar a Boa Nova aos pobres.

Caríssimos irmãos, sacerdotes, recebemos como graça a unção do Espírito Santo e a vocação de incarnar o espírito de Jesus na totalidade da nossa vida. Acolhemos a missão da Igreja como a nossa missão e o estilo de Jesus como o nosso estilo de vida e de ação. A nossa configuração com Cristo, sendo espiritual é radicalmente existencial, ou seja, é plenamente incarnada na totalidade de nós mesmos, da nossa vontade, da nossa liberdade, do nosso corpo e da nossa vocação.

A nossa configuração com Cristo Cabeça da Igreja que é o seu Corpo, faz de nós homens espirituais e tem de expressar-se na nossa atitude de vida, no nosso modo de ser e de estar, na profundidade das nossas opções, no ardor da nossa fé, na disponibilidade do nosso serviço, no nosso amor a Deus e aos irmãos.

Caríssimos irmãos, sacerdotes, o Espírito do Senhor está também sobre nós, porque Ele nos ungiu para anunciarmos a Boa Nova aos pobres. Agradeçamos ao Senhor este dom e peçamos-Lhe a graça da fidelidade no serviço, com o mesmo amor com que Ele nos ama e renovando sempre a nossa condição de homens espirituais.

Coimbra, 2 de abril de 2026
+ Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra

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