Missa da Ceia do Senhor 2026 – Homilia de Dom Virgílio

MISSA DA CEIA DO SENHOR 2026

Caríssimos irmãos e irmãs!

Entramos no Tríduo Pascal com o Senhor Jesus Cristo que celebrou a Ceia com os seus discípulos e instituiu o Sacramento da Eucaristia. Desde aquele dia celebramos o memorial da Sua paixão, morte e ressurreição, não simplesmente como um gesto significativo, mas como um verdadeiro Sacramento, isto é, um ritual litúrgico que nos dá a graça de participar da Páscoa de Jesus.

O Evangelho segundo S. João ajuda-nos a compreender o significado da Última Ceia, quando nos oferece a narração do lava-pés como gesto de humildade, amor e serviço, que nasce sempre da celebração da Eucaristia. Para que não corramos o risco de ficar somente com a recordação de um acontecimento antigo ou com a memória intelectual transmitida pelo Evangelho, para que a Eucaristia não seja somente um rito litúrgico já distante do tempo da sua fundação, o lava-pés aproxima-a das nossas vidas e dá-lhe a dimensão concreta da atitude de Jesus que pode ter continuidade na vida de cada pessoa em todos os tempos e lugares da história.

Na Sua oferta ao Pai por meio da cruz, Jesus realiza de forma única a salvação da humanidade: um só assume sobre os seus ombros as dores de todos e o Seu sacrifício é redentor da humanidade.  É o que celebramos de modo sacramental na Eucaristia, o sacrifício único do Filho único de Deus e a única oferta de Jesus ao Pai, que salva a humanidade. Todos nós que nela participamos e acreditamos na realidade da salvação realizada por meio do sacrifício de Cristo, somos convidados a dar continuidade a uma atitude semelhante por meio do amor vivido e partilhado, simbolicamente expresso no gesto do lava-pés. Sendo Ele o único Salvador, todos nós podemos acolher a comunhão com Ele, por meio da resposta da nossa mente, da nossa vontade e da nossa vida. Por isso, Jesus deixou aos seus discípulos e a nós a forte exortação: “também vós deveis lavar os pés uns aos outros… dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também”.

A Eucaristia, que Jesus pediu aos seus apóstolos que continuassem a celebrar em Seu nome, é sempre anúncio da morte do Senhor até que Ele venha. Reafirmamo-lo sempre após a consagração quando dizemos “anunciamos, Senhor, a Vossa morte; proclamamos a Vossa ressurreição; vinde, Senhor Jesus”. Este anúncio constitui o centro da Boa Nova que acolhemos todos os dias e que levamos ao mundo, constitui o centro da evangelização, porque é o centro do mistério da fé em que acreditamos.

Uma vez que a celebração da Eucaristia atualiza sacramentalmente o mistério da nossa fé e da nossa salvação, ela é imprescindível à nossa vida de cristãos e à vida da Igreja. Não é possível ser Igreja sem Eucaristia, como não é possível ser cristão sem Eucaristia. Deste modo, não tem sentido dizer-se cristão não praticante, pois “ser cristão praticante” inclui sempre a Eucaristia como celebração, acolhimento e proclamação do mistério da fé.

No entanto, a dimensão eucarística da vida cristã não se esgota na celebração ou na ação litúrgica. A vida cristã inclui igualmente sempre a incarnação do espírito de Cristo, como amor que dinamiza a totalidade de nós mesmos e da nossa ação no mundo. A Escritura sintetiza o que é o espírito de Cristo quando enuncia o mandamento novo do amor a Deus e do amor ao próximo.

Esta noite de Quinta-Feira Santa e a missa da Ceia do Senhor ensinam-nos os fundamentos da nossa espiritualidade cristã, que renovamos sempre na celebração da Eucaristia.

É a espiritualidade pascal, pois nasce do acontecimento central da fé, a morte e ressurreição de Jesus para nos dar vida. Este é o primeiro e o maior distintivo da nossa espiritualidade. Jamais ecoara notícia semelhante, pois esta é a novidade do Deus vivo e verdadeiro: permitir que Jesus, o Filho Unigénito, ofereça a sua vida até à morte, por amor às suas criaturas. Esta é, ao mesmo tempo, a única prova da fidelidade e da misericórdia de Deus, que a humanidade precisava de conhecer para poder acreditar. 

É a espiritualidade do amor e do serviço, porque nasce do amor de Deus, que se reparte e leva ao amor dos irmãos como vocação maior de cada pessoa. “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”, é a regra fundamental do nosso caminho espiritual cristão, porque este amor nasce de Deus, manifestou-se em Jesus Cristo, e impele-nos para os outros. A fé propõe-nos esse caminho da perfeição por meio do amor recebido e dado, que deve tomar toda a nossa vida e manifestar-se como serviço aos irmãos, tal como aprendemos de Jesus na Eucaristia.

É a espiritualidade eclesial, porque é vivida dentro da comunidade cristã, povo de Deus, que segue Jesus Cristo a caminho de Deus Pai e conduzido pelo Espírito Santo. Deus quis salvar a humanidade constituída como um povo de irmãos e irmãs, que cooperam com Ele por meio da conversão do seu coração e fazendo caminho juntos. A Eucaristia celebrada na assembleia reunida e na comunhão dos irmãos e irmãs com Deus, faz a Igreja e ensina-nos a verdadeira espiritualidade da comunhão eclesial.

É a espiritualidade da gratidão. A Eucaristia é a grande ação de graças e o sacramento da gratidão a Deus pela salvação que nos deu em Jesus Cristo. Agradecemos elevando o cálice da salvação, e oferecendo o sacrifício do louvor da nossa vida, segunda as palavras proféticas do Salmo que há pouco cantámos. Agradecemos com o culto da liturgia e com o culto da vida, na unidade feliz que aprendemos na Eucaristia.

É a espiritualidade da missão. A Eucaristia leva-nos ao coração de Deus e conduz-nos ao anúncio da Pessoa de Jesus Cristo, fonte de vida e de paz. A espiritualidade cristã nunca nos fecha sobre nós mesmos nem nos afasta da humanidade. Pelo contrário, aproxima-nos de todos, pois Jesus deu a sua vida por todos e o amor do Pai é para todos. O anúncio da Boa Nova constitui a nossa maior vocação, pois permite-nos trabalhar para que se realize o encontro da humanidade como Deus, com as fontes da salvação.

Nesta noite, agradecemos ao Senhor por nos dar a Eucaristia, que salva o mundo. Ela oferece-nos a possibilidade de uma renovação interior e espiritual fundada na fé em Cristo morto e ressuscitado, que é poder de amor, de reconciliação, de paz e de salvação.

Face às catástrofes humanas a que assistimos na atualidade, a Igreja tem a missão de viver da Eucaristia e de dar ao mundo a espiritualidade eucarística, que Jesus nos deixou quando nos disse: “Fazei isto em memória de Mim”.

Pedimos à Virgem Maria, a mulher eucarística, de coração puro e santo, que conduza a Igreja e o mundo à Eucaristia, que nos salva.

Coimbra, 02 de abril de 2026
+ Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra

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