Os trabalhos de Leão

Os trabalhos de Leão 

Centro e trinta e quatro anos após a publicação da Rerum Novarum, um novo  Papa Leão vem sublinhar a centralidade da dignidade do trabalho humano no pensamento social cristão, em clara e assumida sequência da doutrina firme das  encíclicas sociais de Francisco, Laudato si e Fratelli Tutti

Leão XIII, testemunha, no final do século XIX, da natureza brutal do primeiro capitalismo industrial, funda nos textos evangélicos uma absoluta recusa da  degradação da pessoa que trabalha em pura mercadoria humana.  

A dignidade do trabalhador é, desde então, configurada como princípio absoluto e inegociável. E como imperativo princípio de conduta económica e de ação  política movidas por uma mundividência evangélica. 

Pois, embora o reino de Cristo não seja deste mundo, a mensagem cristã de  igualdade radical é máxima a realizar nos concretos reinos do mundo. 

Se é verdade que a Rerum Novarum buscou apresentar-se como resposta e  alternativa às críticas socialistas desse final de século, também é verdade que  essas duas linhas de resposta, como Mounier deu conta logo nos anos 30 do  século XX, em O Personalismo, rapidamente se tornaram tangentes, quando não  convergentes. 

João Paulo II, logo após a queda do Muro de Berlim, assestou baterias contra a  (re)nascente idolatria dos mercados e contra a religião materialista do consumo.  Poucos lhe deram então atenção. 

E, num golpe de mágica semântico, o trabalhador foi sendo cunhado pela teoria  económica triunfante como “fator de produção*, como “recurso” humano, como  “capital” humano. 

Como coisa, logo. Como objeto. Como mercadoria. Nunca como pessoa. 

Como servo, afinal. Já não de uma gleba de abastanças agrárias e fundiárias,  mas de capitães da indústria, primeiro, e de aventureiros financeiros, depois. 

O capitalismo industrial e financeiro converteu-se, nos últimos decénios, numa  fábrica de fazer servos.

O capitalismo digital vai pelo mesmo imparável caminho. 

Robert Prevost, ao rebatizar-se como Leão, o décimo quarto, diz, uma outra vez,  do indeclinável imperativo cristão nas esferas do poder mundano: tratar o outro,  nas relações privadas e na construção de políticas públicas, como um espelho,  como um igual radical, como um fim, no sentido de Kant. 

Que é o sentido de Levinas. Que é, afinal, sem concessões hermenêuticas, o  único sentido possível do mandamento síntese do cristianismo: amar o outro  como a si mesmo. 

É este o trabalho de Leão XIV. São estes os trabalhos de Leão XIV. Trabalhos  de Hércules. Trabalhos de Cristo. 

Manuel Castelo Branco  

Comissão Diocesana Justiça e Paz 

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