
CELEBRAÇÃO DA PAIXÃO DO SENHOR 2026
Caríssimos irmãos e irmãs!
A paixão do Senhor põe a nossa fé à prova. Não é habitual que alguém queira ser seguidor de uma pessoa que sofre e que morre como um malfeitor. Normalmente idealiza-se ser seguidor dos heróis, dos que superam todas as adversidades, dos que têm poder para destruir e aniquilar os outros; deseja-se ser seguidor dos que triunfam nos vários campos da competição e da concorrência.
Particularmente no Ocidente, a ideia de fé e de religião cristã aparece a muitos como uma realidade ultrapassada e segundo as teorias propagandísticas do politicamente correto e da modernidade, é apresentada como algo que diminui a liberdade individual e coletiva. Em muitos contextos, o cristianismo tornou-se uma realidade a eliminar, a Igreja aparece como uma estrutura que perdeu a relevância que teve noutras épocas e sente-se em relação à fé e à Igreja, nalguns casos, indiferença, noutros, uma crítica silenciosa e, noutros ainda, uma contestação explícita e sonora. Para muitos, o cristianismo tornou-se a causa dos males que povoam a história da humanidade e a origem daquilo que em nome do progresso civilizacional pretendem combater e que genericamente tem como expressão maior as designadas questões fraturantes.
Se, para muitos, a dificuldade está em aceitar Jesus Cristo como Filho de Deus e Salvador do mundo, isto é, a sua natureza divina, para a maior parte, a dificuldade situa-se no que respeita à discordância da dimensão ética da fé cristã e na aceitação da Igreja e dos valores que ela proclama. Pelo meio de tudo isso há muitos preconceitos, variadas agendas ideológicas ocultas, mas igualmente muitas experiências reais e negativas de mau testemunho dos cristãos, assim como choques com as pessoas da Igreja e com a própria vida.
A paixão de Cristo continua ainda hoje no mundo. A paixão de Cristo continua especialmente na paixão dos homens que são perseguidos pela sua fé, em todos os que são vítimas de injustiças, de qualquer forma de abuso, de violência, de guerra, de pobreza, de indiferenças ou de ódios.
A paixão da Igreja também continua hoje no mundo, e esta pelo facto de ser pecadora em todos nós os seus membros, mas também por causa da sua vocação profética e por provocar as consciências adormecidas ou mesmo seduzidas pelo mal. As perseguições religiosas são da atualidade e encontram-se entre as formas de violência mais comuns, apesar da proclamação da liberdade religiosa em quase todo o mundo.
A paixão de Cristo redimiu a humanidade pelo poder de amor de Deus. A paixão da Igreja tem sentido quando associada à paixão de Cristo se torna colaboração na redenção da humanidade. Todos somos chamados a entrar nela com o mesmo amor, a associar as nossas dores às de Jesus, para que, com Ele e pelo seu poder, sejam dores redentoras. Pela nossa paixão de todos os dias, vivida com amor, nas relações familiares, no trabalho e na sociedade, na luta por uma consciência reta e justa, na vivência da fé cristã em ambiente adverso, na luta contra o mal e o pecado, queremos livremente estar com Jesus Salvador e com a sua Igreja, sacramento de Salvação.
Viver a paixão como amor leva-nos à procura contínua da autenticidade da fé, na condição de discípulos de Jesus em todos os lugares e nas circunstâncias favoráveis ou adversas. O tempo em que vivemos, de pluralidade de ideias, de tradições culturais e religiosas ou de secularismo, exige de todos nós uma decisão consciente, livre, responsável e informada no que respeita à fé em Deus e na Igreja.
O Evangelho de S. João recordou-nos hoje a negação de Pedro quando, no pátio da casa do Sumo Sacerdote, lhe perguntam por três vezes: “Tu não és dos discípulos desse homem?” Ao que ele respondeu: “Não sou”. Este que foi o maior drama da vida do Apóstolo Pedro, pode tornar-se também uma realidade na vida de muitos cristãos: a dificuldade de proclamar com palavras e com a vida a fé em Jesus, sobretudo quando a sociedade o não aprova. Outro passo do Evangelho recorda-nos que, nas duras provas, quando Jesus é entregue, julgado, maltratado e caminha para o calvário, os seus discípulos, desaparecem de cena, por causa do medo que os atormenta.
A Igreja vive hoje com muitas tribulações a sua paixão. Um dos motivos tem a ver com a debilidade da fé dos batizados, com a pobreza do testemunho de vida, e com as falhas no seguimento de Jesus Cristo como seus discípulos. A multidão dos batizados entre nós é uma multidão fraturada em muitos modos de presença, de pertença, de participação e de vivência da fé. Não ignoramos inclusivamente as divisões internas, que mancham a túnica de Cristo e põem em causa a credibilidade da Igreja.
A celebração da paixão do Senhor convoca-nos para o fortalecimento da fé em Jesus Cristo e na Sua Igreja; convoca-nos para a realização de um caminho pessoal de encontro com Ele; convoca-nos para uma inserção viva e ativa no Povo de Deus; convoca-nos para um enraizamento transformador no espírito de Cristo em que está toda a nossa vida.
Contemplemos a paixão do Senhor e como a Virgem Maria, acompanhemos cada um dos seus passos com todo o amor do nosso coração, porventura com as dores do caminho, mas sempre com a fortaleza da fé.
Coimbra, 03 de abril de 2026
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra