Precisamos de uma nova Rerum Novarum?
As transformações tecnológicas, sociais e ambientais do século XXI colocam em causa os fundamentos da economia atual.
Em 1891, a encíclica Rerum Novarum (“Das coisas novas”), do Papa Leão XIII, trouxe caminhos para curar cicatrizes profundas do pós Revolução Industrial.
A Igreja posicionou-se de forma inovadora e disruptiva, criticando o socialismo, por negar o direito à propriedade privada, e o liberalismo, por não proteger os trabalhadores. Este documento semeou as bases da Doutrina Social da Igreja, influenciando encíclicas posteriores.
Volvido mais de um século, as “coisas” do nosso tempo parecem semelhantes. Vivemos a era da globalização, das plataformas digitais, da inteligência artificial, com a ameaça real da crise climática, a par das crescentes desigualdades económicas e sociais. Esta revolução do “nosso tempo” coloca-nos dilemas morais, novos riscos e novas vítimas.
Byung-Chul Han descreve a “sociedade do cansaço” e da “uberização” do trabalho em que vivemos atualmente. A pobreza e a fragmentação social crescem com a crise espiritual, ecológica e ambiental. A vida e o trabalho são uma fonte de ansiedade e burnout.
O enfraquecimento dos laços comunitários e a permissão da exclusão ao acesso a direitos básicos aumentam a pobreza e a vulnerabilidade, num meio tecnológico onde o progresso não garante, por si só, nem a coesão social, nem solidariedade.
Por outro lado, as alterações climáticas revelam afinal os limites de uma economia cujo crescimento se pensava infinito. A encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, mostra como “tudo está interligado” — o ambiente, a economia e as relações humanas —, denunciando o modelo de desenvolvimento que sacrifica e ignora os mais fracos e o planeta. Em Fratelli Tutti, Francisco apela a uma real convivência democrática, alertando que o mercado “por si só não resolve tudo” sem responsabilidade social. A Economia de Francisco, resultado de um trabalho de jovens economistas e empreendedores, chamados por Francisco, que desenharam um modelo para “reanimar a economia”: torná-la inclusiva, respeitadora da Terra e da Vida, que “na fraternidade e na construção de um mundo em que ninguém ficasse para trás”.
O mundo empresarial mostra alterações e toma consciência de que o objetivo máximo não deve ser o lucro, mas a criação de um valor maior para todos os stakeholders.
John Mackey propõe que o lucro seja consequência, “capitalismo consciente”, e não o fim.
Neste sentido, a teoria “economia do donut” de Kate Raworth propõe um sistema com limites ecológicos e direitos sociais coexistentes.
Também Amartya Sen (1999) se alinha com o princípio do bem comum, central na doutrina social da Igreja, entendendo que “o desenvolvimento deve ser uma expansão das liberdades reais das pessoas garantindo condições dignas de trabalho, educação, saúde e participação cívica”.
Precisamos de uma nova Rerum Novarum?
Sim. Mais do que uma doutrina, um apelo à consciência de “todos, todos, todos“ a nível académico, empresarial, politico e espiritual. Que chegue aos crentes e não crentes e seja um pacto para termos um novo humanismo económico, usando a economia como instrumento da vida.
Precisamos de ações efetivas, que exaltem a dignidade do trabalho no mundo digital, a justiça climática e intergeracional, com um modelo económico regenerativo a par com a ética financeira e esperança.
Sim, é acima de tudo uma escolha moral, e tal como Leão XIII, há momentos em que calar é ser cúmplice.