Procurar esperança na incerteza
Daniela Sofia Neto
Comissão Diocesana Justiça e Paz — Diocese de Coimbra
Este artigo poderia ter sido escrito com inteligência artificial. No entanto, perdia-se o olhar de uma jovem nascida no final dos anos 90 e aquilo que nenhum algoritmo consegue reproduzir com fiabilidade: a forma como qualquer artigo de opinião nos traz experiências vividas, crenças, valores e até contradições de quem o escreve.
A minha geração cresceu com a promessa de que, se estudasse e se trabalhasse muito, teria um futuro assegurado. Chegada à vida adulta, é tempo de descobrir que o futuro é, muitas vezes, um contrato a prazo, rendas que sobem em escalada, a ausência de garantia de emprego, a ansiedade que se vai instalando e se normaliza, o manancial de ferramentas para comunicar com pessoas em qualquer parte do mundo e, ainda assim, a experiência íntima da solidão. Soma-se que é realmente difícil separar a vida em caixinhas. A vida real é porosa. Aquilo que a minha geração sente é uma consequência do que a sociedade decide, e aquilo que a sociedade decide é consequência dos valores que nela cultivamos. O “eu” e o “nós” não vivem em gavetas diferentes.
Recupero um ponto deixado perdido neste texto: não escrevi este artigo com inteligência artificial. Recupero-o porque temos de atender a esta transformação nos nossos dias. Em janeiro, lia-se nos meios de comunicação social que o ChatGPT se assume como o novo “médico de família” para 40 milhões de pessoas. O que nos diz isto sobre nós? Não será contraditório que, num momento em que a investigação científica é imensa, as pessoas prefiram acreditar em sistemas algorítmicos sobre os quais têm pouca informação e nenhum controlo?
Não escrevo este texto com a intenção de demonizar a tecnologia, até porque acredito que ela nos trouxe muitas potencialidades. Escrevo para falar sobre um sintoma que nos atravessa: a carência de acompanhamento, a carência do “nós”. Quando as consultas demoram, quando as respostas humanas não chegam a tempo, quando a vida não abranda, procuramos alternativas.
E um chatbot tem uma vantagem quase irresistível porque está sempre disponível, responde sem julgamento e dá a sensação de companhia. Quando o “nós” falha, por atraso, por cansaço, por falta de tempo, pela burocracia ou pela falha de acesso, a disponibilidade passa a ser uma zona cinzenta. E, no fundo, aquilo que se procura não é um diagnóstico, é uma presença.
O “nós” torna-se desejado, mas ao mesmo tempo difícil. É quase impraticável. As pessoas estão cansadas, as agendas não coincidem, as instituições dececionam e as conversas tornam-se polarizadoras. Ainda assim, há pequenos sinais que dão esperança: quando alguém fica mais tempo do que o esperado, quando os grupos resistem ao desgaste dos tempos, quando se avisa em vez de pedir desculpa depois da falha. São coisas muito pequenas e não são perfeitas, mas alimentam a esperança. Tal como tantos jovens adultos, vivo a entrada na vida adulta num momento de crise e de transformação social sem precedentes. É preciso ter esperança para acreditar que o “nós”, mesmo imperfeito, pode voltar a ser casa: um lugar onde a vida abranda, onde há cuidado e onde o futuro não é sempre a prazo.