Quando a riqueza de 12 poderia acabar com a pobreza de milhões

Quando a riqueza de 12 poderia acabar com a pobreza de milhões

 Os números são frios, mas a realidade que escondem é profundamente desumana e moralmente perturbadora. Um recente estudo da Oxfam revela que a riqueza dos multimilionários aumentou mais de 16% em 2025, três vezes mais rápido do que a média dos últimos cinco anos, atingindo o valor astronómico de 15,7 biliões de euros. Mais chocante ainda: as 12 pessoas mais ricas do mundo detêm hoje mais riqueza do que metade da humanidade — cerca de quatro mil milhões de pessoas. Segundo a mesma organização, essa fortuna seria suficiente para erradicar a pobreza extrema 26 vezes.

À luz da Doutrina Social da Igreja (DSI), estes dados não podem ser recebidos com indiferença.  Eles revelam uma profunda distorção moral na organização da economia global. Como recorda a encíclica Laudato Si’, “a desigualdade afeta cada vez mais não apenas indivíduos, mas países inteiros” e está ligada a um modelo económico que absolutiza o lucro e ignora os limites humanos e ambientais. 

A DSI tem sido clara e consistente ao longo das décadas: a economia deve estar ao serviço da pessoa humana, e não o contrário. Quando a acumulação extrema convive com a miséria absoluta, algo está profundamente errado.

A Igreja, e o Papa, têm sido particularmente incisivos na denúncia desta desigualdade. Em Fratelli Tutti, alerta que “o mercado, por si só, não resolve tudo” e que a concentração da riqueza corrói o tecido social, mina a fraternidade e destrói a esperança. Quando poucos acumulam o que falta a muitos para viver com dignidade, estamos perante uma injustiça estrutural, não perante uma fatalidade histórica.

Esta desigualdade extrema não é apenas uma questão económica e ética; é também um fator de instabilidade social e de ameaça à paz. Onde cresce a distância entre ricos e pobres, cresce também a frustração, a violência, o ressentimento e a quebra da confiança nas instituições. A mensagem cristã é clara – Não há paz duradoura sem justiça, e não há justiça quando poucos acumulam o que poderia garantir vida digna a muitos.

É neste contexto que ganha ainda mais relevância a Economia de Francisco – uma economia que coloca a pessoa no centro, valoriza o trabalho digno, protege a casa comum e reconhece o destino universal dos bens.

A solidariedade, princípio essencial da DSI, não pode continuar reduzida a gestos pontuais de caridade que aliviam consciências, mas não transformam estruturas. Exige escolhas políticas corajosas, sistemas fiscais mais justos, combate sério à evasão fiscal e uma economia global que coloque limites à acumulação desenfreada. Exige também cidadãos informados, críticos e comprometidos com o bem comum.

Este estudo da Oxfam devia funcionar, assim, como um espelho incómodo da nossa indiferença coletiva. Sabemos que seria possível erradicar a pobreza, mas continuamos a aceitá-la como inevitável. Sabemos que a riqueza existe, mas toleramos que fique concentrada em poucas mãos. Sabemos o que deve ser feito, mas adiamos, justificamos ou desviamos o olhar.

Num mundo onde 12 pessoas possuem mais do que quatro mil milhões, a pergunta impõe-se com força renovada: queremos continuar a normalizar esta injustiça ou seremos capazes de construir uma economia ao serviço da fraternidade, da paz e do bem comum, capaz de devolver esperança a milhões e dignidade ao futuro comum da humanidade.

Talvez ainda estejamos a tempo de escolher. A justiça em vez da indiferença, a solidariedade em vez da acumulação e a paz que nasce de uma distribuição mais justa dos bens da Terra — casa comum de todos.

Luís Rocha
Comissão Diocesana Justiça e Paz 

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