SOLENIDADE DE SANTA ISABEL DE PORTUGAL – 2023
SANTA CLARA-A-NOVA
Caríssimos irmãos e irmãs!
A celebração de Santa Isabel de Portugal, nossa Padroeira, tem um fundamento histórico, uma vez que estamos diante de uma figura do nosso passado, que deixou as suas marcas próprias no sentir coletivo deste povo.
Esta celebração tem uma motivação: nós queremos dar continuidade a uma história comum, que marcou e marca o nosso percurso de pessoas crentes e cultas, inseridas numa sociedade que preserva a memória viva dos que influenciaram de forma positiva e distinta aquilo que agora são.
A celebração da Solenidade de Santa Isabel de Portugal tem uma mensagem a comunicar: estamos diante de alguém que se destacou pela sua fé e pelas suas obras, e realçamos de modo particular a sua caridade para com os pobres e o seu empenhamento em favor da paz.
Todos os anos, quando saímos de casa para a festa da Rainha Santa, renovamos em nós e propomos à Igreja e à comunidade humana um caminho com conteúdo, com valores, com desafios, que nos dignificam e ajudam a construir como povo que não se resigna com o passado, mas quer ir mais longe na sua humanidade e na sua fé. Tanto nos anos de procissão, quando a tradição torna mais vistosa a festividade, como nos anos de celebração mais recatada a Rainha Santa evoca sempre amor a Deus, caridade para com os pobres, atenção aos outros, responsabilidade na gestão da própria vida, envolvimento em favor da construção de uma sociedade mais harmoniosa, trabalho em favor da justiça, procura da paz entre pessoas e povos.
A tradição mais sábia e prudente ensinou-nos a discernirmos adequadamente quais as figuras que queremos que façam parte da nossa inspiração comum, quais os heróis que queremos honrar, quais as festividades rituais que elegemos para a nossa comunidade. Santa Isabel de Portugal situa-se, sem dúvida, entre aqueles maiores que a nossa comunidade venera pela integridade da sua vida, pela retidão das suas intenções e pela entrega às causas mais nobres e mais universais. A santidade que lhe reconhecemos a partir da grandeza do seu coração aberto a Deus e aberto aos irmãos, torna a sua pessoa exemplar no passado e no presente e faz-nos estar aqui a celebrar a sua memória e a colher a sua inspiração.
O capítulo 25 do Evangelho segundo S. Mateus inspirou multidões de homens e mulheres ao longo da era cristã, em todas as latitudes, e entrou de forma indelével no coração e na vida de Santa Isabel de Portugal. Se a alguns deu uma orientação global da sua vida e levou a centrar no irmão e na irmã com o rosto visível do necessitado a quem sou chamado a prestar o auxílio possível, a outros levou à radicalidade da entrega a Cristo e ao serviço dos pobres.
Esta página do ensino de Jesus tem a particularidade de nunca deixar o ouvinte indiferente. Ao referir realidades concretas, que ferem a sensibilidade de qualquer pessoa e ao por-nos diante de situações extremas de carências básicas ou de sofrimentos atrozes, provoca-nos da melhor forma e exige de nós uma atitude, um assumir de responsabilidade diante de tudo o que nos apresenta.
A mensagem de Jesus presente neste texto torna-se mais forte e incisiva pelo uso da primeira pessoa do singular: (eu) tive fome, (eu) tive sede…. Não é simplesmente um qualquer anónimo que aparece em cena, nem é um coletivo em que se perde o sentido da identidade de cada um e, por isso, também das suas alegrias ou dos seus sofrimentos. A identidade de cada “eu”, de cada pessoa, que clama ou que lança no rosto dos indiferentes e insensíveis a sua dor, obriga a ver sem rodeios o que fizemos ou não fizemos, a realidade que nos move na vida.
A frase conclusiva do texto recolhe a mensagem que Jesus pretende comunicar e enfatiza a importância da atenção a cada pessoa, quando diz: “Quantas vezes o deixastes de fazer a um dos Meus irmãos mais pequeninos”. Ao referir “um dos Meus irmãos” o texto, por um lado, reforça a importância de cada pessoa e, por outro, abre à pluralidade dos irmãos, evitando assim qualquer forma de manifestação egocêntrica.
O contraste entre a referência “ao mais pequenino” e a referência ao rei, que diz: “também a Mim o deixastes de fazer”, reforça a universalidade da ação que Jesus quer promover como centro da sua mensagem e reflexo do coração de Deus: trata-se da caridade vivida com cada pessoa, independentemente da sua condição, que inclui o mais pequenino e inclui também o grande rei.
Celebramos ainda hoje Santa Isabel de Portugal porque o testemunho da sua vida nos diz que ela viveu esta página do Evangelho de Jesus. Ela soube unir no seu coração o amor a Deus, o grande Rei, que se senta no seu trono glorioso, e o amor a um dos seus irmãos mais pequeninos. O amor a Deus levou-a ao amor dos irmãos e o amor dos irmãos levou-a ao amor de Deus.
Irmãos e irmãs, a Igreja do nosso tempo, pela voz do Papa Francisco tem-nos mostrado que uma das vias privilegiadas da evangelização é a atenção aos pobres, a todas as periferias humanas, sociais e culturais. No fundo, trata-se da concretização daquilo que ouvimos na Primeira Epístola de S. João: “não amemos com palavras e com a língua, mas com obras e em verdade”, porque esse é o testemunho que conta, que se pode ver e que se faz sentir, porque esse centra-nos nas pessoas, faz-nos entrar na realidade de cada um e leva-nos a procurar mostrar-lhe o rosto misericordioso de Deus.
A Rainha Santa continua ainda hoje a evangelizar, mesmo que não conheçamos as suas palavras e os seus escritos. Ela evangeliza com a memória das suas obras e com a verdade da sua vida. Ela conheceu o amor de Deus em Jesus que deu a vida por nós e aprendeu a dar a vida pelos irmãos, como ouvimos em S. João.
A Rainha Santa continua a dizer-nos com o seu testemunho poderoso: não tenhamos medo de pôr Deus no centro da nossa vida; Ele nos levará a pormos aí também os nossos irmãos e a deixarmos uma forte marca de bondade no nosso caminho. Isso é Evangelho de verdade.
Que esta celebração anual da Rainha Santa Isabel inspire a nossa cidade a encontrar os caminhos do futuro, pois ela tem uma história, tem uma motivação e tem uma mensagem, que nos mobiliza e que nos leva ao encontro do melhor que há em nós: a fé em Deus e a caridade para com os irmãos.
Coimbra, 04 de julho de 2023
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra