Vemos ouvimos e lemos…
Assim começa o poema de Sophia de Mello Breyner Andresen cantado por Francisco Fanhais na Vigília para a Paz na Capela do Rato no final de 1972.
Era uma resposta orante para um tempo de guerra e, ao mesmo tempo, uma resposta ao desafio lançado pelo Papa Paulo VI na sua mensagem para o dia mundial da paz de 1 de Janeiro de 1973: «A Paz é possível». Mas a mensagem deixava entrever a dificuldade do caminho: «O egoísmo é uma raiz nociva que nunca poderá ser completamente erradicada da psicologia humana. Na psicologia das nações, ele assume vulgarmente a forma e a força da sua razão de ser; torna-se a sua filosofia ideal».
Muito recentemente, em 22 de março, o papa Leão XIV proclamava
“Não podemos permanecer em silêncio diante do sofrimento de tantas pessoas inocentes, vítimas de conflitos”. A Leão XIV resta-lhe a PALAVRA. Não tem armas nem poder. Mas tem a força da Palavra que não lhe pertence mas que procura interpretar os sinais dos tempos, a partir da sua consciência de crente e de guardião de uma memória da Igreja nas travessias, nem sempre amenas, dos mares da História, Uma palavra direta e acutilante na defesa do dom maior que é a Vida e a Paz. Ele não pode ignorar. Ele não pode calar. Por isso mesmo insiste a ‘tempo e fora de tempo’ na denúncia dos dramas e dos desastres que um mundo em Guerra vai espalhando em todos os continentes. Leão XIV fez da PAZ uma palavra orientadora dos seus ensinamentos, a partir mesmo da sua primeira saudação como Papa em que pedia uma paz «desarmada e desarmante», tema que seria abordado com vigor na sua 1ª Mensagem para o Dia Mundial da Paz em 1 de Janeiro do ano corrente. Na mensagem do Natal pedia: «Que o clamor das armas cesse e que as partes encontrem coragem para um compromisso de diálogo sincero e respeitoso».
Com a guerra vem o desastre (des-graça) maior que é a morte de milhares de irmãos: Ucrânia, Rússia, Gaza, Hamas, Líbano, Irão, Israel, Myanmar,Haiti,Sudão, Afeganistão, Paquistão, Etiópia, Iémen, Burkina Faso, Nigéria, Síria…etc…
No final de 2024, o número de pessoas deslocadas à força atingiu o recorde de 123,2 milhões. (Será possível imaginar o que é ser refugiado, viver num campo de refugiados, estar em país estrangeiro em tempos de xenofobia e de aporofobia?).
Mas seos conflitos são uma das principais causas dos deslocados, faz parte do cortejo da Guerra a fome e a miséria…
É um verdadeiro desfilar dos 4 cavaleiros do Apocalipse, montando cada um o seu cavalo colorido:
«Observei quando o Cordeiro abriu o primeiro dos sete selos. Então ouvi um dos seres viventes dizer com voz de trovão: “Venha! “
Olhei, e diante de mim estava um cavalo branco. Seu cavaleiro empunhava um arco, e foi-lhe dada uma coroa; ele cavalgava como vencedor determinado a vencer..
Quando Ele abriu o segundo selo, ouvi o segundo vivente que dizia: «Vem!» E saiu outro cavalo, que era vermelho; e ao cavaleiro foi dado o poder de retirar a paz da terra e de fazer com que os homens se matassem uns aos outros. Foi-lhe dada, igualmente, uma grande espada.
Quando Ele abriu o terceiro selo, ouvi o terceiro ser vivente que dizia: «Vem!» Na visão apareceu um cavalo negro. O cavaleiro tinha na mão uma balança. E ouvi algo semelhante a uma voz no meio dos quatro seres viventes que dizia: «Uma medida de trigo por um dinheiro, e três medidas de cevada por um dinheiro. Mas não estragues o azeite nem o vinho.»
E, quando Ele abriu o quarto selo, ouvi a voz do quarto ser vivente que dizia: «Vem!» Na visão apareceu um cavalo esverdeado. O cavaleiro chamava-se «Morte»; e o «Abismo» seguia atrás dele. Foi-lhes dado poder sobre a quarta parte da terra, para matar pela espada, pela fome, pela morte e pelas feras da terra». (Ap 6, 1-8)
Dizia Leonardo Boff: «eu não sou apocalíptico, mas os tempos são»…
Em tempo de calamidades é importante revisitar o Apocalipse como livro da consolação para todos os perdidos e todos os condenados Os cavalos, símbolo da humanidade violenta e destruidora têm como contraponto a vitória do Cordeiro, degolado mas de pé, vencedor sobre todos os poderes da grande Prostituta. É, em meio noite, um convite à esperança que, no dizer de Péguy é a mais pequenina das duas irmãs (a fé e a caridade) e que só com elas consegue avançar.
No sonho de Nabucodonosor todos os Impérios têm pés de barro…O drama é que eles continuam o desastre.. até quando?
Termino com duas notas de acontecimentos que são sinal de vida e de esperança: em 24 de Março lembram-se 45 anos do martírio de D. Óscar Romero e, em 25 de Março, a celebração do dia da dignidade humana na Polónia que o Papa Leão XIV saudou com estas palavras: «Em tempos marcados pela loucura da guerra, é fundamental defender a vida».
Idalino Simões
Comissão Diocesana Justiça e Paz