ENCONTRO COM DOCENTES E INVESTIGADORES DE COIMBRA CAPELA DA UNIVERSIDADE

  1. SAUDAÇÃO

 

Saúdo os docentes e investigadores da Universidade de Coimbra, que aceitaram o convite que vos foi dirigido para este encontro, pelo Mons. Leal Pedrosa, Capelão da Universidade e pelo P. Nuno Santos, Coordenador do Secretariado Diocesano da Pastoral Universitária.

Este constitui um importante momento para todos nós enquanto pessoas conotadas com realidades, por um lado distintas e por outro convergentes, como aliás sugere o local em que realizamos este encontro: a Capela da Universidade, situada no núcleo mais significativo da Academia Conimbricense.

Agradeço a vossa presença e proponho uma breve reflexão sobre alguns pontos relativos à tarefa comum que assumimos de ser servidores do ser humano e servidores da verdade.

 

 

2. AS RAÍZES DA UNIVERSIDADE

 

Pode parecer, hoje, estranha a afirmação da existência de uma relação originária entre a Universidade e a Igreja. Tanto na Europa como em Coimbra, a Universidade teve a sua génese nas escolas monásticas e catedralícias e, portanto, num ambiente eclesiástico, não somente aberto ao estudo e à reflexão, mas inclusivamente ávido de progresso nas mais variadas áreas do conhecimento.

Atualmente a Igreja dirige uma vasta rede de universidades no mundo inteiro, que primam pelo rigor científico e pela honestidade intelectual a toda a prova. Muitos homens da Igreja fazem do seu trabalho nas universidades públicas um verdadeiro campo de promoção da pessoa humana e dos valores cristãos, que assumem como uma missão.

Passados os períodos mais quentes da turbulência ideológica, que criou uma série de complexos relativos à religião nos meios culturais e que nos impediram de ler a história com alguma objectividade, somos agora mais capazes de olhar para o passado de uma forma claramente mais tranquila e conscientes de que a busca da verdade e do sentido para a vida se sobrepõe a todos os particularismos, que desfocam a realidade.

Na tentativa de buscar as motivações que determinaram a fundação das Universidades, encontramos, sem dúvida, algumas que são transversais ao passado e ao presente, à Igreja e à Academia. A mais relevante é precisamente aquela que percorre a totalidade das inquietações humanas, a saber, o sentido da existência e a vida feliz.

Apesar de parecerem questões de carácter filosófico ou teológico, elas devem estar presentes como motivações fundamentais em todos os que se dedicam às diversas áreas do conhecimento, mesmo de carácter técnico-científico e, ao mesmo tempo, como motivação central de todos os dinamismos de procura de religiosos e cristãos. Por vias diferentes, as escolas monásticas e catedralícias medievais e as Universidades modernas, ora mais centradas na dimensão especulativa ora nas vertentes técnicas e práticas, procuram respostas para a existência humana.

Se as antigas escolas, numa fase inicial do processo, se centravam prevalentemente em explicações provenientes do mundo cultural informado pela fé cristã, a Universidade moderna teve períodos em que ignorou ou inclusivamente rejeitou qualquer possibilidade de conciliação entre fé e razão. A um domínio porventura exclusivista da fé, sucederam-se os endeusamentos dos cientismos e da razão; a um dogmatismo sucedeu-se frequentemente outro.

Como herdeiros de uma história e de um caminho feito, temos hoje condições para uma abordagem serena, e somos capazes de uma equilibrada visão do Homem, enquanto sujeito ativo no encontro da fé e da razão.

Salvo as raras exceções, constituídas pelos extremismos de todos os quadrantes, dominados por critérios totalmente subjetivos e avessos à procura de qualquer verdade que não seja a sua verdade, caminhamos para uma leitura unificadora do Homem, incapaz de ignorar a sua condição corporal e espiritual. Estão, por isso, em grande parte, esbatidas as velhas dicotomias, frequentemente apresentadas como incompatíveis: religião e ciência, fé e razão.

É possível ser-se cientista, investigador, docente universitário e, ao mesmo tempo, crente, cristão e, por isso, pessoa de fé, como aliás, acontece com tantos homens e mulheres em todas as Universidades do Mundo e também na Universidade de Coimbra.

 

 

  1. QUE LUGAR PARA A UNIVERSIDADE

 

A Universidade ocupa um lugar insubstituível na sociedade portuguesa e no mundo moderno e espera-se dela um trabalho profundo ao serviço da verdadeira universalidade. Numa sociedade “vacilante e instável”, como lhe chamou o Papa Bento XVI, e num mundo de pensamento débil ao qual faltam grandes referências, espera-se dos homens do conhecimento e da cultura um contributo sério para o reencontro da humanidade consigo mesma e com os seus valores fundamentais.

As grandes ideologias fragmentaram-se e diluíram-se, desde o marxismo, ao cristianismo, passando por diversos humanismos e ficou um grande vazio, que muitos apresentam como uma característica deste tempo. De novo, surgiram apenas algumas ideologias radicais, fixadas em aspectos parciais da realidade, a abranger pequenas franjas da sociedade e sem capacidade de consensos alargados.

Os pressupostos filosóficos universais relativizaram-se, de tal modo que as ideias de bom e belo ou os princípios e valores morais são de escolha individual, resultam de um consenso democrático, agora também relativizado em nome dos direitos das minorias. Passámos da afirmação dos valores universais à dos valores definidos pelas maiorias segundo as regras do referendo democrático e estamos agora a chegar a uma ainda maior fragmentação sob a pressão dos grupos minoritários radicais ou lobbys, antecâmara do individualismo mais refinado, segundo o qual cada um constrói as suas próprias referências de modo totalmente independente.

As próprias religiões são agora à medida do homem e cada um se sente no direito de escolher a que mais lhe agrada e convém com base em critérios ligados sobretudo à sua sensibilidade pessoal. Perdem a sua dimensão transcendente e tornam-se caminhos de busca solitária, carentes de dinamismo comunitário, voltadas para a busca da felicidade terrena. Tornam-se, desse modo, religião em sentido estrito, pois perdem a dimensão de fé sobrenatural.

Neste contexto, é justo esperar da universidade um contributo para o amadurecimento da humanidade, que a ajude, por um lado a superar o vazio de valores e a falta de horizontes, e por outro, a encontrar motivações fortes e capazes de determinar objectivos comuns e razoáveis.

 

 

  1. A UNIVERSIDADE E A SOCIEDADE PORTUGUESA

 

Ao refletir sobre este encontro, detive-me a pensar sobre o contributo que pode dar a Universidade para a resolução da situação extremamente crítica em que se encontra a sociedade portuguesa. Ao contrário do que se passou noutras épocas, hoje não podemos apontar a reduzida escolaridade como causa dos problemas que nos afectam, uma vez que, o acesso ao ensino e à Universidade se tornou generalizado.

Que contributo tem dado a escola em geral e a universidade em particular para a construção de uma sociedade equilibrada a todos os níveis?

No seu discurso aos jovens professores universitários, no Escorial, em Agosto passado, Bento XVI acautelava-os contra o perigo de erigirem com critério principal do trabalho universitário “a mera utilidade e o pragmatismo”, com todas as consequências que daí advêm, sendo a mais grave a perda do sentido da universalidade, que preserva de uma visão reducionista e distorcida do ser humano. De facto, na Universidade, em virtude da extremamente grande especialização dos diferentes ramos do saber, pode perder-se o sentido da universitas, quando dela se espera exatamente o contrário.

Esta visão pragmática da realidade, tanto na sociedade em geral como na Universidade, levou a todo o tipo de abusos em nome do utilitarismo, que torna parcial a forma como se encara a realidade e o ser humano; abriu a porta a uma imensidade de particularismos e subjetivismos que se podem tornar muito perniciosos, como são uma ciência que não reconhece limites para além de si mesma, a tentação dos totalitarismos políticos, a manipulação da vida que perde o seu carácter sagrado e inviolável, a utilização da economia e da finança ao serviço exclusivo do lucro, a fruição da natureza fora do princípio ético da justiça e do respeito pelos outros.

A Universidade tem uma imensa responsabilidade quando se trata de fornecer à sociedade os conteúdos, os meios e os critérios capazes de dar forma a perspectivas de futuro verdadeiramente responsáveis, justas e assentes no recto uso da razão. Pela via do conhecimento e do saber, enquanto condições para o desenvolvimento, ela tem capacidade para criar uma nova mentalidade, um novo modelo de sociedade, uma nova cultura.

 

 

  1. O CONTRIBUTO DA FÉ CRISTÃ

 

O já referido discurso de Bento XVI aos jovens professores universitários da Espanha afirma que “a universidade foi, e deve continuar sendo, a casa onde se busca a verdade própria da pessoa humana”.

Relendo a Encíclica “A Fé e a Razão”, no número 25, podemos retomar a questão da verdade como central na ligação com a questão do conhecimento e do saber e, portanto na relação com a Universidade, enquanto seu lugar privilegiado. Esta Encíclica retoma a Metafísica de Aristóteles para afirmar que “todos os homens desejam saber” (I, 1) e que o objecto próprio deste desejo é a verdade. Depois continua afirmando que é próprio do ser humano desejar saber e certificar-se da verdade daquilo que se sabe. Este foi o motor que levou todas as gerações de investigadores e cientistas a lançar-se na aventura do estudo e da reflexão e a alcançar tão grandes resultados.

Neste sentido, a fé cristã oferece um enorme contributo no momento de nos abrirmos ao conhecimento da verdade. Ao proclamar que o Homem é criado à imagem e semelhança de Deus, ela afirma como sua característica essencial a sua abertura à racionalidade, que o leva a buscar a verdade precisamente no diálogo racional que não exclui a fé, mas antes a integra como possibilidade de abertura a horizontes mais vastos.

“O caminho para a verdade completa empenha o ser humano na sua integralidade: é um caminho da inteligência e do amor, da razão e da fé”. Frase capital no referido discurso do Papa, completada com uma citação da Encíclica “Caritas in veritate”, 30: “há o amor rico de inteligência e a inteligência cheia de amor”, que introduz uma outra perspectiva, a da centralidade do ser humano no qual coincidem verdade e bem, conhecimento e amor.

A partir desta ideia podemos delinear um modo novo de estar na Universidade tanto na condição de docente como de aluno: estar ao serviço da superação da sede de verdade, numa atitude de abertura à inteligência, à fé, à razão e ao amor enquanto constitutivos de todo o ser humano

A fé cristã, a partir do Evangelho, tem a possibilidade de fornecer ao mundo universitário da docência, da investigação e da aprendizagem, uma nova orientação global, ao direcionar tudo para a valorização da pessoa humana total, enquanto fim último de todo o processo do conhecimento.

Não é por acaso que muitos universitários, tanto professores como alunos, se aproximam da fé cristã quando descobrem nela um auxílio para a questão do sentido daquilo que fazem e uma possibilidade de abertura à única verdade importante, a que liberta e salva o ser humano corpo e espírito, a viver no tempo e com anseios de eternidade.

A experiência da expulsão de Deus do mundo numa tentativa de construir o paraíso terreno sem Ele, está em muitos casos a dar lugar a uma nova fase de busca e abertura ao mesmo Deus. A experiência leva a concluir que quanto mais pensou conseguir o domínio sobre tudo sem Deus, mais o homem se sentiu fechado nos horizontes do seu próprio destino. Afinal, segundo a teologia bíblica, não foi possível construir o paraíso sem o Homem e agora, a experiência dramática da Sua ausência mostra que também não é possível construí-lo sem Deus.

Depois de um rejeição liminar da cosmovisão cristã em muitos ambientes universitários, ela parece voltar a chamar a atenção às novas gerações, desiludidas com as visões parciais e reducionistas que se revelaram frequentemente contra o Homem. Concretamente, em Coimbra, assistimos a um renovado interesse dos universitários pelas atividades e propostas de carácter espiritual e Deus volta a ser inquietação, mesmo que a questão seja, por vezes, equacionada fora do mundo religioso institucional.

 

 

  1. CONCLUSÃO

 

Enquanto Igreja estamos convencidos que a dimensão cristã da vida traz um contributo inegável a todos os que se situam de forma aberta e humilde na procura da verdade.

Somente a atitude de liberdade interior, juntamente com a gratuitidade conduzem à busca da verdade pela verdade e permitem a renúncia a qualquer tipo de interesses ideológicos ou pragmáticos. E a fé cristã é uma grande escola de liberdade interior e de gratuitidade na relação com os outros e com a realidade.

Bento XVI, num discurso proferido em 2008, em Washington, na Universidade Católica da América, sintetizou eloquentemente este dinamismo da fé cristã quando falou da caridade intelectual e da diakonia da verdade. Situou, por isso, a questão ao nível mais elevado: a intelectualidade como expressão do amor/caridade; e o respeito absoluto pela verdade, a ponto de justificar que nos tornemos seus servos.

Agradeço a vossa atenção e formulo os melhores votos de que, cada um de nós dentro da área de saber em que se move, assuma efetivamente o trabalho intelectual como uma forma de caridade e a procura da verdade como um serviço ao ser humano.

 

 

Coimbra, 24 de Novembro de 2011

Virgílio do Nascimento Antunes

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