Homilia de Domingo de Ramos 2014

O sentido do Domingo de Ramos na Paixão do Senhor exprime-se bem no refrão do Salmo 21, Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?

Este era já o grito do crente do Antigo Testamento que, no meio dos sofrimentos da vida, da procura do sentido para tudo, do abandono dos outros ou mesmo nas dúvidas de fé, desabafa. Algumas vezes exprime a sua revolta por não compreender tudo o que se passa consigo; outras vezes mostra a sua confiança e esperança no Deus que nunca o abandona, mesmo que não consiga perceber ou mesmo aceitar a realidade e a sua oração quase diga o contrário.

Nos lábios de Jesus, que entrou solenemente em Jerusalém sob a aclamação do povo, significou a solidão daquele que estava rodeado pela multidão; depois, na cruz, a solidão de quem está mesmo sozinho a enfrentar a vida e exprime com dramatismo o que lhe vai na alma. Ao contrário do que exprime por vezes a experiência bíblica, em Jesus, o grito é igualmente dramático, mas sempre expressão da confiança fundada no amor n’Aquele que nunca O abandona. Avança no meio da solidão e da dor, mas avança com confiança, pois o Pai é, efetivamente Pai, e nunca pode faltar como amparo e força no momento oportuno.

Esta é a experiência vivida, de uma forma ou de outra por todas as pessoas de todos os tempos: sentir a solidão devido à falta do amor, sentir o abandono dos outros, mesmo que rodeados de multidão e, nalguns casos, o sentir a solidão pelo abandono de Deus, ou seja, pela falta de fé e de conhecimento da sua misericórdia.

Diante das interrogações que resultam dos acontecimentos incompreensíveis, das relações destruídas, dos sentimentos não amados; diante dos porquês que todos os dias surgem face aos desencantos, surge o grito: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?

A partir da fé no Deus amor, ele será sempre o grito da confiança no mesmo Pai que nunca abandonou o Seu Filho Jesus e nunca nos abandonará.

Que consequências concretas tem esta certeza de fé para a nossa vida?

Um cristão como todo o homem de boa vontade depara-se com muitas situações em que toca a solidão e a sensação de abandono por parte dos outros ou de Deus.

A profissão e testemunho da fé, hoje minoritária e, por vezes, alvo de suspeita, traz frequentemente o medo de estar sozinho a enfrentar um mundo hostil. A comunhão eclesial com os irmãos e a fé na proximidade de Deus são portadores do alento interior para continuar.

Diante da tentação de desistir e alinhar pelas vias mais comuns do agir humano, diante da dificuldade de transformar a sociedade pela prática da justiça, da honestidade e da solidariedade, se não houver uma certeza profunda da verdade do caminho, somos submergidos pela corrente avassaladora das massas.

Diante das dificuldades familiares, do corte das relações ou da separação dos esposos, dos pais e dos filhos, constroem-se situações de solidão e abandono, que fazem ecoar o grito do desespero pelo abandono dos homens ou, porém, a confissão confiante da fé no Pai que nunca esquece os seus filhos.

Tantas pessoas se veem diante da tentação de desistir por se sentirem sozinhas a lutar pelos ideias de vida que assimilaram, no âmbito social, familiar, laboral, político, ético. Ao cristão pede-se que, enquanto imagem de Deus, esteja próximo dos mais abandonados e manifeste a comunhão e solidariedade com os que lutam pelos seus mais nobres ideais.

O abandono de Jesus na cruz acolhe todos os nossos abandonos, a sua oração reúne todas as nossas orações. Que a sua confiança no Pai possa dar-nos a confiança capaz de nos erguer no meio de todas as interrogações e desânimos; que a fé no Deus rico de misericórdia, que ressuscitou Jesus de entre os mortos nos dê a esperança da feliz ressurreição.

 

Coimbra, 13 de abril de 2014

 

Bispo de Coimbra

Plano Pastoral


Bispo Diocesano


Vaticano