Homilia XX Domingo Comum C - Festa do Divino Senhor da Serra - 16-08-2014

Irmãos e irmãs!

Subimos ao Senhor da Serra para cumprir uma tradição já muito longa nesta região de Semide, e pela qual manifestamos o nosso desejo de conversão ao Senhor, nosso Deus. 
Já o Povo de Deus referido no Livro de Isaías, recebeu uma promessa de Deus, segundo a qual haveria de ser conduzido ao seu santo monte para aí gozar da alegria de estar com o seu Deus e Senhor, em comunhão de amizade com Ele, na sua casa de oração. 
Por meio das palavras do Senhor, que ouvimos na leitura do Livro de Isaías, o convite torna-se extensivo a todos os homens, de toda a terra e de todos os tempos, membros do seu povo ou estrangeiros, desde que decididos a praticar o direito e a justiça, a acolher a sua lei e os seus preceitos e a converterem-se a Ele de todo o coração.
O Senhor convida-nos sempre a subir ao monte, onde nos encontramos com Ele na sua casa de oração e chama-nos à conversão e mudança de vida, como condição para acolher a salvação, que está próxima.
Este convite ainda hoje chega a todos os povos da terra por meio da sua Igreja, chamada a anunciar a Boa Nova da Salvação e a convidar homens e mulheres das nossas aldeias e cidades a acolherem o Senhor e a subirem ao seu santo monte, isto é, a aceitarem encontrar-se com Ele no silêncio do seu coração, na agitação das atividades da sua vida quotidiana, nas ocupações familiares ou laborais, no empenho social pela transformação das realidades, no compromisso eclesial. 
Em tempo de trabalho ou em tempo de férias, vale a pena parar um pouco, entrar no recolhimento da consciência, da natureza ou de um lugar sagrado para nos deixarmos confrontar com a vida, com as suas preocupações, com os seus apelos, com o seu sentido ou com a s suas contradições. Esse pode ser o monte santo em que a voz de Deus se faz ouvir, o lugar onde o seu olhar se pode cruzar com o nosso olhar, o início da relação onde os corações atribulados, confundidos ou mesmo angustiados podem encontrar a tranquilidade, o repouso e a paz, por que tanto anseiam. 
Seja qual for a nossa situação de vida, sejam quais forem as nossas convicções  no momento presente, quer tenha já despertado em nós a alegria de conhecer o Senhor e o desejo de estar com Ele, quer pensemos que nunca O chegaremos a encontrar, a porta da fé está sempre aberta e a possibilidade do encontro com o seu amor continua a oferecer-se como um dom. 
Deus procura sempre a humanidade, como nos garantia o Apóstolo Paulo, na Epístola aos Romanos: procura os que sempre se mantiveram fiéis e na obediência da fé, mas tem uma predileção especial pelos que O não conhecem e nem sequer sentem o desejo de O procurar mas, sem o saber, também precisam d’Ele. Deus procura a ovelha perdida e, por meio da sua Igreja, está atento, de um modo especial aos pobres, aos que se situam nas margens da sociedade, da vida ou da fé.

A liturgia ofereceu-nos hoje a página do Evangelho da mulher cananeia. Mais do que uma mulher ou uma pessoa singular, ela é o paradigma de toda a pessoa que sente que não tem a chave da totalidade da sua vida nas suas mãos.
Enquanto mulher cananeia, vinda de uma região de tradição dita pagã, ela tinha as suas respostas para as questões fundamentais da vida, próprias da cultura do seu meio ambiente. O facto de procurar Jesus significa que essas respostas não lhe preenchem a totalidade da mente nem do coração: são insuficientes, são parciais, não bastam para alimentar a alegria e a esperança de viver em todas as situações; porventura, quando tudo corre bem e não há muitas interrogações, até parecem bastar; mas quando os males maiores atingem a sua pessoa ou a sua família, as coisas mudam de figura e todas as respostas parecem desfazer-se como fumo. 
Aquele desejo de conhecer o Deus vivo e verdadeiro e de encontrar Jesus são já uma autêntica fé; o seu grito por compaixão e o seu pedido de socorro são já uma confissão de fé, mesmo que o encontro mais esclarecido e a inteligência da fé ainda não sejam explícitos. 
Aquele grito por misericórdia e auxílio no meio da tribulação são já sinal de que Deus tocou o coração daqueles a quem quer falar, a quem se quer dar a conhecer e que estão no caminho do encontro com a fé sobrenatural.
“Mulher, é grande a tua fé. Faça-se o que desejas”. Eis a resposta de Deus que todos ansiamos por ouvir, no meio das angústias que nos cercam. Eis a resposta que sempre ouvimos de Deus, quando nos aproximamos de coração sincero, na humildade da nossa condição e confiados na sua misericórdia eterna. 

O Santuário do Divino Senhor da Serra, onde nos encontramos, como muitos outros lugares semelhantes, constitui um sinal desta procura humana e desta resposta da misericórdia de Deus, aberta a todas as pessoas e a todos os povos.
A nossa participação nesta celebração da Eucaristia e nesta romaria deve fortalecer a nossa fé no Deus que nos convida a irmos ao seu encontro no alto do monte, nos acolhe nas nossas alegrias e nas nossas debilidades e, acima de tudo, nos responde com a palavra poderosa do seu amor e da sua misericórdia: é grande a tua fé; faça-se o que desejas.
Sairemos daqui mais felizes e confortados por acreditarmos na alegria do coração de Jesus Cristo que, exulta com a salvação de todos e cada um dos seus irmãos, pois como Bom Pastor, está disponível para dar a vida por cada pessoa que anda perdida, por mim e por ti, por tantos que acompanham esta celebração pela rádio. 
Levaremos aos outros o testemunho alegre do Evangelho que conhecemos, de Jesus Cristo que nos amou e nos ampara por meio da sua Igreja, o verdadeiro monte santo em que nos sentimos os pobres em espírito e, por isso, os filhos prediletos de Deus Pai; daremos um testemunho convincente de que Deus está disponível para acolher a todos com entranhas de misericórdia. 
Caminhará connosco, no regresso a casa e na vida toda, Maria, a Mãe de Jesus, Aquela que, com um coração grande, um coração de Mãe, sempre acompanha e guia todos os seus filhos.

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