II DOMINGO DO ADVENTO B - MISSA NA SÉ VELHA DE COIMBRA

Caríssimos irmãos!

A caminhada do Advento tem hoje para nós uma etapa distinta: celebramos como comunidade cristã a Missa Dominical nesta igreja paroquial de S. Cristóvão. Para mim é uma emoção forte entrar neste lugar que através dos séculos simboliza a presença da Igreja de Jesus Cristo nestas terras de Coimbra. Aqui tenho presentes no sacrifício da Eucaristia, todos os que nos precederam na fé, dos quais somos herdeiros espirituais e que foram elos fortes na cadeia da transmissão da tradição cristã até aos nossos dias. Damos graças ao Senhor por todos os que construíram a Igreja que agora somos e, porventura buscando incessantemente o caminho da santidade, nos abriram as portas do encontro com Jesus Cristo e o Seu Evangelho.

Faço votos de que seja uma oportunidade para fazer crescer os laços humanos e espirituais que vos unem enquanto comunidade paroquial e para abrirdes os vossos horizontes para a realidade da Diocese de Coimbra de que sois parte integrante. Desejo ainda que seja uma oportunidade para renovardes a fé na Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica, na qual o bispo tem a missão de vos confirmar.

 

Ao ler a primeira leitura, do livro de Isaías, comparei a cidade de Coimbra à cidade de Jerusalém, na qual o profeta manda elevar a voz ao arauto para proclamar: “Eis o vosso Deus!” A cidade dos homens, representada no bulício da Baixa, onde as pessoas correm envolvidas pelo trabalho, e a cidade dos homens representada pela calma da alta, onde o pensamento e a ciência progridem, precisa de parar para ouvir o mensageiro que grita uma palavra mais forte e mais sábia que a das ocupações laborais e que a da especulação: “Eis o vosso Deus!”.

Na cidade, em todas as cidades, Deus deixou de ser uma evidência e deixou inclusivamente de ser para muitos uma inquietação. Os interesses movem-se por outros lados e a dimensão espiritual da vida, a busca de respostas na fé deixou de ser prioritária. Deste modo, tanto a Sé Velha, como os outros templos da cidade, perderam a sua força de sinal da fé atual, de sinal de Deus e da sua Igreja com validade para o presente do Homem. Estes lugares ficaram, por vezes, reduzidos à categoria de monumentos, de que se gosta, que se visitam, que convidam inclusivamente ao silêncio e à introspeção, mas que não têm a capacidade de interpelar em ordem à vida, aos valoes, à fé.

Uns pensam que a resposta para as interrogações humanas está na fadiga do trabalho e dos bens que se possuem ou que se desejam; outros pensam que a razão, ao desenvolver um progresso sem limites e ao aplicar as suas descobertas à técnica e à ciência, criará todas as condições necessárias à realização humana.

“Eis o vosso Deus!”, deverá constituir o grito dos profetas de hoje, que se faz ouvir dentro e fora dos templos da cidade, como convite para que, depois de transpormos os caminhos escarpados e as veredas tortuosas do deserto, cheguemos à conversão a Deus, única fonte que nos sacia.

As igrejas da cidade têm a missão de chamar a atenção para o Deus ignorado ou escondido. Podem sê-lo de novo, se acolherem comunidades vivas que celebram a fé e que partilham os bens e a vida; se não forem lugares vazios à espera de turistas, mas tiverem a coragem de fazer propostas de evangelização, catequese e liturgia criteriosamente preparada e celebrada.

A leitura da Segunda Epístola da S. Pedro, faz-nos pensar no significado do tempo que vivemos e na perenidade da fé que abraçámos. “Um dia diante do Senhor é como mil anos e mil anos como um dia”. Essa é história deste lugar, a história da Igreja De Coimbra e a história da Igreja Universal, que somos. Essa é a história do tempo de Deus, que continuamente convida e acolhe, que não desiste de nós, apesar das infidelidades, abandonos e pecados.

O Senhor diz-nos com toda a clareza que não podemos ficar parados, confiados nas glórias do passado, nem à sombra dos templos que construímos. A missão da Igreja é nossa e do nosso tempo; enquanto esperamos os novos céus e a nova terra, havemos de empenhar-nos “sem pecado e sem motivo algum de censura” na construção do Reino de Deus. Havemos de fazer deste mundo um grande templo de Deus, onde reine a paz e a justiça, de que Cristo é portador. A Sé Velha na sua tranquilidade, silêncio e calma, ajuda-nos a contemplar essa paz de Deus; na robustez da sua forma, qual muralha inexpugnável, convida-nos a resistir contra toda a espécie de mal; na sua impassibilidade, ajuda-nos a compreender o tempo de Deus, que é tempo de graça por todas as gerações; na sua austeridade, transporta-nos à figura de João Baptista que, de forma enérgica, mas humilde, anuncia a chegada do Messias; na penumbra do seu interior, convida-nos a entrar no mistério de Deus, revelado em Jesus Cristo.

Fala-se frequentemente da vocação atual da Sé Velha dentro da cidade e da Igreja de Coimbra.

Este é o lugar privilegiado para uma pastoral da oração e da contemplação. As vias de acesso a Deus são muito variadas, mas passam certamente, na atualidade como nos tempos mais remotos, pelos dinamismos de encontro com Ele no silêncio contemplativo e orante, a que a Sé Velha naturalmente convida.

A espiritualidade cristã, a vida interior, alicerçada e conduzida pelo Espírito Santo, é o distintivo dos discípulos de Jesus Cristo. São necessárias muitas propostas sérias de reflexão e encontro interior com Deus, segundo a enraizada tradição secular da Igreja ou segundo atuais os carismas, criadores de novas modalidades, devidamente discernidas pela Igreja. Este pode também ser um lugar de cultivo intenso de uma vida espiritual orientada pelo Espírito de Deus, com propostas e ações novas

Temos necessidade de voltar continuamente às fontes das Sagradas Escrituras e da Tradição da Igreja, aos fundamentos sólidos da fé cristã, para que nos não percamos na voragem das ideias que se sucedem no tempo. Este lugar, enquanto elo de ligação entre o presente e o passado, está vocacionado para ajudar a Igreja nesse regresso às fontes de que sempre carece para manter a sua identidade.

A Santa Maria de Coimbra, peçamos nos ampare neste tempo de graça, que é o Advento, e neste tempo de graça, que é a nossa vida. Ela, a Mulher que esperou na fé a transformação do mundo por meio da incarnação do Verbo de Deus, nos ajude a esperar na mesma fé a transformação da nossa cidade, por meio do mesmo Jesus Cristo.

 

Coimbra, 04 de Dezembro de 2011

Virgílio do Nascimento Antunes

Bispo de Coimbra

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