SOLENIDADE DE SANTA MARIA MÃE DE DEUS - DIA MUNDIAL DA PAZ 2014 - MISSA NA SÉ NOVA

Irmãos e irmãs!

Iniciamos o novo ano invocando a bênção de Deus para a Igreja e para o mundo. Acreditamos que toda a nossa vida está nas suas mãos, pois Ele é o Criador e Senhor de tudo o que existe, mantém todas as coisas e, sobretudo, ama eternamente a humanidade, todos os seus filhos e filhas, a ponto de enviar ao mundo o Seu Filho como o único caminho de redenção.

Como ouvimos na Primeira Leitura, do Livro dos Números, o Senhor convidou os membros do Seu Povo a abençoarem os Filhos de Israel, ou seja, a serem portadores da bênção de Deus uns para os outros. É o reconhecimento de que Deus quer a vida dos seus filhos, pois a primeira e a maior bênção é a vida que partilhamos uns com os outros.

Estas expressões renovam em nós a certeza de que tudo o que somos, dizemos e fazemos na relação com os outros os edifica e torna felizes ou, porventura, se torna obstáculo à sua vida. Somos mediadores das bênçãos e graças de Deus ou, porventura, entraves por meio de palavras, desejos, sentimentos e ações.

A vinda do Senhor ao meio de nós, de que falava a Segunda Leitura da Epístola aos Gálatas, deu início a um tempo novo: o tempo das relações familiares entre Deus e os homens. Jesus Cristo tornou-se o mediador de todas as graças e de todas as bênçãos de Deus, permitindo-nos passar da condição de escravos à condição de filhos, que chamam a Deus Abbá, seu Pai.

Estamos diante do mistério da relação de Deus com a humanidade, cujo sentido é iluminado pelo mistério das relações familiares, de paternidade/maternidade, de filiação e de fraternidade. Por meio de Jesus, seu Filho, Deus eleva-nos à condição de filhos; Jesus eleva-nos à condição de irmãos. Eis o fundamento teológico da fraternidade universal, realidade, por um lado, tarefa e missão, por outro.

Ao procurarmos a marca fundamental do agir humano e cristão, havemos de encontrá-la na fraternidade, que nasce do facto de sermos filhos de Deus e irmãos em Jesus Cristo. Aí nasce a nossa condição de irmãos de todos os homens, que se transforma na missão de vivermos fraternalmente. Aí nasce o amor e a paz como frutos da fraternidade e como objetivos a alcançar com base no esforço humano e na força da bênção de Deus.

 

Celebramos hoje o Dia Mundial da Paz para o qual o Papa Francisco nos quis enviar uma mensagem centrada na fraternidade e intitulada: Fraternidade, fundamento e caminho para a paz. Dela destaco três ideias fundamentais para a nossa reflexão deste domingo, que são, ao mesmo tempo, três fortes apelos para a nossa ação.

Em primeiro lugar, a afirmação segundo a qual “a fraternidade se começa a aprender habitualmente no seio da família, graças sobretudo às funções responsáveis e complementares de todos os seus membros, mormente do pai e da mãe”. A família, diz ainda, “é a fonte de toda a fraternidade, sendo por isso mesmo também o fundamento e o caminho primário para a paz” (nº 1).

A conversão familiar à fraternidade vivida e ensinada constitui um instrumento ao nosso alcance para sermos construtores da paz, começando por casa e impregnando o mundo da cultura da fraternidade. Como sabemos, não é possível transformar o mundo se não começamos por transformar o nosso coração e o coração da nossa família, tornando-o mais fraterno, pacífico e pacificador. Do mesmo modo, não é possível preocuparmo-nos com os homens e mulheres nossos irmãos espirituais se não começamos por amar a família natural, pais e irmãos.

Em segundo lugar, destaco a afirmação do Papa relativa à fraternidade como caminho para vencer a pobreza e para instaurar a solidariedade e a justiça nas relações económicas. “Há uma forma de promover a fraternidade – e, assim, vencer a pobreza – que deve estar na base de todas as outras. É o desapego vivido por quem escolhe estilos de vida sóbrios e essenciais, por quem, partilhando as suas riquezas, consegue assim experimentar a comunhão fraterna com os outros. Isto é fundamental para seguir Jesus Cristo e ser verdadeiramente cristão” (nº 5)

Em tempos de abundância ou em tempos de crise a busca da solidariedade e da justiça que nascem do sentido da fraternidade alargam os corações e dão orientações e princípios fundamentais para todo o tipo de relações, incluindo as económicas e laborais.

Grande é este desafio que a fé cristã nos faz, no sentido de vivermos um autêntico sentido dos outros, que leve à solidariedade, à partilha e à comunhão fraterna como caminho para a paz.

Em terceiro lugar, o Papa fala-nos da fraternidade como a força capaz de extinguir todas as guerras, dirigindo um forte apelo a todos os que semeiam violência e morte: “naquele que hoje considerais apenas um inimigo a abater, redescobri o vosso irmão e detende a vossa mão! Renunciai à via das armas e ide ao encontro do outro com o diálogo, o perdão, e a reconciliação para reconstruir a justiça, a confiança e esperança ao vosso redor!” (nº 7).

Se este grito vale no que diz respeito às armas reais que matam nas diferentes guerras entre os povos, vale também para todas as situações de guerras entre as pessoas, em que as armas são o ódio, a indiferença, a maledicência, as relações cortadas, qualquer forma de violência e as injustiças.

 

Neste primeiro dia do ano, voltemos a contemplar Maria, José e o Menino deitado na manjedoura, como fizeram os pastores que se dirigiram à pressa para Belém. Neles vemos pessoas de paz, uma família de paz, numa casa de paz. Ali está a fraternidade, a solidariedade, a justiça e a comunhão no amor, que vem de Deus para toda a humanidade.

Que este ano seja de bênção de Deus, ancorada na fraternidade como caminho para a paz nos nossos corações, nas nossas famílias e na nossas sociedade.

 

Coimbra, 1 de janeiro de 2014

Virgílio do Nascimento Antunes

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