XX ANIVERSÁRIO DA ASSOCIAÇÃO DE ESTUDANTES DE TEOLOGIA DE COIMBRA - MISSA DO ESPÍRITO SANTO (Ez 37, 1-14; Jo 7, 37-39) - IGREJA DO SEMINÁRIO DE COIMBRA

A ocorrência do vigésimo aniversário da Associação de Estudantes de Teologia de Coimbra congrega-nos nesta celebração da Missa Votiva do Espírito Santo, o Senhor que dá a Vida e nos conduz pelos caminhos da sabedoria e do conhecimento dos mistérios de Deus.

Acreditamos que toda a revelação é iniciativa de Deus, que nos abre a possibilidade de entrar no Seu mistério infinito. Já durante o longo período em que a humanidade se interrogou acerca das suas origens, do princípio e do fim, do sentido da vida e da morte e se abriu à dimensão religiosa, se manifestava a iniciativa de Deus. Segundo Santo Agostinho, nunca procuraríamos a Deus se Ele não estivesse já dentro de nós e não começasse por nos procurar a nós. A história de relação entre Deus e o povo hebreu, constituiu a primeira fase do encontro entre Deus e a humanidade, a primeira aliança, que culmina no encontro definitivo por meio de Jesus Cristo, o Filho, na segunda e, ao mesmo tempo, nova e eterna aliança.

Esta é a história definitiva da revelação, do encontro e do conhecimento de Deus, que é, ao mesmo tempo, a História da Salvação. Apesar de se passar num tempo histórico diferente do nosso, (krónos) ela tem uma realização efetiva no nosso próprio tempo, ou seja, no tempo da graça, ou kairós, que é o “hoje” da história da relação de Deus com cada um de nós e com o Povo de Deus que nós somos.

Em todo o processo opera de forma invisível o Espírito Santo de Deus, a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Ele pairava no início sobre a superfície das águas, quando Deus criou os céus e a terra; Ele habita em todo o ser humano criado e no qual Deus insuflou o sopro de vida; Ele inspira de um modo particular homens e mulheres tornando-os “espirituais”, capacitando-os para o conhecimento e o ministério; Ele é derramado sobre os Apóstolos e Maria, ou seja, sobre a Igreja, como Sabedoria que nos abre as portas do conhecimento de Deus, fonte de Vida.

Em duas linguagens diferentes, as leituras da Missa de hoje ajudam-nos a compreender o lugar do Espírito Santo na tarefa de conhecer Deus e onde nos pode levar a sua presença em nós.

Segundo a visão do Profeta Ezequiel, Deus cria e recria toda a humanidade por meio da Sua Palavra Poderosa e do sopro do Seu Espírito. Já fora assim no princípio, quando Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” e depois lhe insuflou nas narinas o hálito de vida. Continua a ser assim, uma vez que Deus continua a proferir a sua Palavra Viva por meio de Seu Filho Jesus Cristo e a derramar sobre a Igreja o Espírito que dá a Vida. De facto, como diz o Profeta, sem a Palavra de Deus e sem o Seu Espírito somos um montão de ossos ressequidos ou as ruínas das criaturas boas e belas que Ele sonhou no princípio.

A morte espiritual da humanidade, com manifestações tão visíveis no tempo em que vivemos, constitui o maior sinal desta ausência da Palavra e do Espírito. A chamada cultura de morte, característica do mundo atual, sem alegria no presente nem esperança no futuro, que relativiza tudo e se nega a aceitar horizontes de eternidade, constitui o produto acabado de uma civilização porventura ainda aberta ao espírito do homem, mas fechada ao Espírito de Deus.

A pergunta central do texto que escutámos precisa de uma resposta: “Filho do homem, poderão reviver estes ossos?”. Saindo para fora da linguagem figurada da visão profética, poderíamos perguntar: Poderá a humanidade refazer-se e abrir-se a uma cultura de vida? A resposta é bem clara: sim, por meio da Palavra e do Espírito, como dizia o texto de Ezequiel e como continua a dizer a Igreja, que celebra os sacramentos da vida nova em Cristo: “Infundirei em vós o meu espírito e revivereis”.

No texto do Evangelho segundo S. João, Jesus proclamava: “do coração daquele que acredita em Mim correrão rios de água viva para a vida eterna”. E conclui que se referia ao Espírito que haviam de receber. S. João afirma, por isso, que o Espírito conduz à fé em Jesus Cristo, Aquele que é a Vida Eterna.

Neste mesmo sentido se entende o estudo da teologia na Igreja, como lemos na Encíclica de João Paulo II “A fé e a razão”: “O objectivo fundamental da teologia é apresentar a compreensão da Revelação e o conteúdo da fé” (93). Do mesmo modo o estudo da filosofia insere-se no trabalho de busca incessante do conhecimento dos mistérios do homem e de Deus à luz da razão. A própria “reflexão filosófica (diz a referida Encíclica) pode contribuir em muito para esclarecer a relação entre verdade e vida, entre acontecimento e verdade doutrinal e sobretudo a relação entre verdade transcendente e linguagem humana inteligível.” (A Fé e a Razão, 99). Por sua vez, a relação entre a teologia e a filosofia “pode traduzir-se numa verdadeira fecundidade para a comunicação da fé e para a compreensão mais profunda da mesma” (A Fé e a Razão, 99).

Os estudos filosófico-teológicos, razão de ser do Instituto Superior de Estudos Teológicos de Coimbra, que envolvem a dedicação de docentes e alunos, constituem uma das mais nobres vocações na Igreja. Além de estarem ao serviço da formação dos candidatos ao ministério sacerdotal, oferecem um contributo indispensável para chegarmos ao conhecimento do Deus que se nos revelou e para que O possamos dar a conhecer numa linguagem inteligível aos homens do nosso tempo.

Na missão de evangelizar o mundo de hoje a Igreja não pode usar uma linguagem hermética, mas precisa de exprimir-se de modo adequado à cultura atual. Isso não será possível sem um estudo e uma reflexão aturados, numa confluência salutar entre a fé e a razão. O Povo de Deus tem o direito de esperar de nós, que ensinamos e estudamos as ciências sagradas, dedicação e fidelidade ao dom que recebemos, pois da seriedade com que o fizermos depende muito do que será a evangelização do mundo ao qual somos enviados.

Ao falar de nova evangelização, a Igreja insiste no novo ardor com que é necessário proclamar a boa nova, mas insiste também na importância dos meios e métodos utilizados. Uma das questões mais importantes tem a ver com a inteligibilidade da fé num mundo cuja linguagem cultural continua a evoluir. Não basta anunciar o Evangelho, é necessário fazê-lo com a linguagem da fé e da vida que seja compreensível. E isso não acontece sem uma fé sólida, bem alicerçada na Palavra de Deus, reflectida e estudada com rigor e dedicação, numa abertura constante ao Espírito Santo.

Von Balthasar, interpretando o sentir da Igreja acerca do modo como há-de estudar-se a teologia, usou a grande expressão: uma ‘teologia de joelhos’. E o Papa Bento XVI acrescentou à frase do grande teólogo: onde se estuda a teologia de joelhos não faltará fecundidade para a Igreja.

“Do coração daquele que acredita em Mim correrão rios de água viva para a vida eterna”, dizia o Senhor no Evangelho. Que o estudo da Teologia, permeado pela presença do Espírito Santo, esteja ao serviço do amadurecimento da fé de todos nós; entremos nesse grande caudal de águas vivas, que é a revelação e a tradição cristãs; deixemos que seja o Espírito a conduzir-nos e a nossa vida constituirá um serviço à fecundidade da Igreja.

A Nossa Senhora, Templo do Espírito Santo, pedimos nos leve aos rios de água viva, a Jesus Cristo, verdadeira Sabedoria de Deus, que salva o mundo.

 

Coimbra, 10 de Outubro de 2011

Virgílio do Nascimento Antunes

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